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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Da Murmuração e da Calúnia

Detalhe da pintura "The Secret", de Elsa Mora.

Murmurar é descobrir sem necessidade as faltas ou vícios do próximo.
Sem necessidade, dizemos, nem para bem público, nem para bem particular, porquanto toma-se às vezes preciso divulgar certos males, ainda com prejuízo e desonra de quem os fez, v. g. (por exemplo), declarando-os aos pais, mestres ou mais superiores, para que ponham o cobro aos desmandos dos seus inferiores e preservem os mais do contágio e outros prejuízos iminentes. Fora esses casos excepcionais, lembremo-nos que nem todas as verdades se dizem.

Caluniar é imputar ao próximo defeitos ou culpas que não tem.
Inventa pois o caluniador perverso e propala falsidades contra a honra do próximo, a quem rouba cruelmente a fama, que é dos bens o mais precioso: crime pois mais odioso que o precedente, já que fere a um tempo a verdade, a caridade e a própria justiça.

Tanto este como aquele pecado da língua designa-se com o nome de Detração.
A Detração, em geral, é a difamação injusta do próximo ausente, por palavras ou sinais.
Arranca ou rasga o detrator a honra alheia, tira-lhe a seu irmão a fama ou a reputação, difama-o.

Para bem avaliar a gravidade deste pecado, é preciso levar em conta várias circunstâncias:

1- A qualidade do detrator, a posição social, o conceito de que goza de inteligente e criterioso, agravam notavelmente a ferida e o prejuízo;
2- A qualidade do ofendido, se for pessoa de consideração, um sacerdote, um Preado, um magistrado, que será feito da sua autoridade e do respeito que merece? Se for um negociante, não ficará desacreditado e seu comércio arruinado? Como achará emprego o criado, o operário assim difamado? Como achará arranjo uma pobre moça com nome já mareado?
3- O objeto ou matéria da detração pode ser de maior ou menor importância, mais ou menos secreto e oculto o mal que a vítima se assaca. 
4- O número e qualidade dos ouvintes.
5- Os inconvenientes as consequências, ora mais, ora menos funestas.
6- A paixão e maldade com que se perpreta o atentado. Muitos são os modos por que os detratores ofendem a fama do próximo:
- Uns inventam e atribuem a outrem mal que não fez; são estes propriamente os caluniadores, execrados de Deus e dos homens, Imponens.
- Outros exageram o mal, Augens.
- Outros, e é este o caso mais frequente, revelam misérias secretas dos particulares ou das famílias, as vezes até em público raso, muitas vezes segredando ao ouvido duma ou outra pessoa: "Sabe você o que dizem de fulano, de fulana... Fulana não é feliz com o marido, triste casal; ...a moça fulana, dizem que é bastante leviana com fulano; ...e que tal a ladroeira de fulano? ...a fulano andam-lhe mal os negócios... Olhe você que é segredo, a mais ninguém o digo!
Ah! segredo, e por que não o guarda? assim me entregaria se de si se tratasse?
Que comichão de falar... oh faísca bastante para incendiar uma vasta floresta! Malditos mexericos, malditos mexeriqueiros que acendem inimizades e as ateiam, referindo a uns e outros o que pode provocar desuniões e rancores quase irremediáveis! Manifestans.
- Difama-se ao próximo deitando-lhe as ações a mal, atribuindo-lhes más intenções em seus atos, ora indiferentes, ora até louváveis. - Ah! coração perverso, mede aos mais pela sua vara; maus seus olhos veem mal em tudo.
Guarde lá para si suas interpretações malignas, que, voltando-se o feitiço contra o feiticeiro, perde a própria fama, e ninguém lhe acreditará nas boas intenções, já que aos mais as nega. In mala vertens.
- Tira-se a honra do próximo negando o bem que outros dizem dele. Ainda que não seja verdade o que se diz em louvor duma pessoa, que tem como isto o detrator. Qui negat.
- Com a mesma injustiça diminui-se o elogio do próximo, ou se torna duvidoso o bem que lhe é atribuído. A quem louva uma bela ação, o bom procedimento, a generosidade, o zelo, o trabalho, a caridade, a fortuna, o comércio, os sucessos dum ausente, responde o murmurador: "Ora, que não há tanto assim... Nem tudo que é luz é ouro!... Não há medir o alcance destruidor dessas e quejandas restrições. Qui minuit.
- Os mesmos danados fins conseguem outros só com o calar-se; que há silêncio calculado e maldoso mais eloquente que as palavras. Estão a dizer mal de alguém, vós poderíeis defende-lo; em o não fazendo, cooperais a degolação desta inocente vítima. 
- O louvor frouxamente pode ser, às vezes, venenosa maledicência. Ao louvar-se alguém à vista de outro, acode este com um sim tão seco, em tom de frieza, de indiferença e de constrangimento como de quem o solta  contra sua opinião; tanto faz, como dizer que coisas sabe que desabonam o mérito da pessoa louvada, e é quanto basta para tudo eclipsar.
Outra manha do detrator: começa ele próprio com os encômios do ausente e, de repente: Mas! muito homem de bem... muito boa mulher... moça muito trabalhadeira... etc., ...mas! Funesto mas! Murmuração tremenda! Disse muito uma palavra, um monossílabo, disse demais! ai! que foi isto enfeitar a vítima para a degolar! Laudatque remissè.
Importa notar que para o crime de detração coopera também quem assiste e escuta, que não houvera murmuradores, se não encontrassem ouvidos para atende-los.
Assim verifica-se o dizer dos Doutores que é de três pontas a língua do murmurador, e fere três vítimas a um tempo: quem fala, com quem fala e de quem se fala.
Entenda-se porém esta doutrina da participação voluntária, que não incorre em tão funesta cumplicidade quem, em não podendo tapar a boca maldizente ou tomar formalmente as dores do paciente, encerra-se em significativo silêncio de tristeza, de contrariedade, de distração, que basta quase sempre o rosto triste para deter a língua do maldizente, como dissipa o vento do Aquilão as chuvas (Pv c. XXV).
Pior se torna e muito mais funesta e mais irremediável a detração quando perpretada por escrito, e que será pela imprensa! Multiplicam-se então os cúmplices no infinito: escritores, impressores, vendedores e leitores sem conta possível, cercam a pobre vítima como vespas peçonhentas, ou antes como assassinos implacáveis, de quem não pode escapar.
Urge-lhe aos detratores de qualquer denominação a obrigação indeclinável de ressarcir o prejuízo que causaram ao próximo, obrigação de justiça, qual a de restituir o que se roubou: Redde quod debes. Repõe o que me tirastes, pode clamar a vítima do detrator; r, e créditoubaste-me a honra, a reputação e crédito, o negócio, a posição; repõe-me isso tudo, que o reclamo em nome da razão, da religião, da justiça e da caridade. [Ou ao seu dono!]

Assim quiseras para ti, assim fazes para os outros, senão, ouve a sentença de Santo Agostinho que é da justiça divina: Non remittitur peccatum nisi restituatur ablatum.

Mas como fazer tão reparação?

Na medida do possível:
1- Em sendo calúnia que assacastes ao vosso irmão, cumpre desdizer-vos e declarar que foi falsidade que dissestes, ainda que desta arte  vos venha o nome de mentiroso, de falsário talvez, porquanto tem direito à sua fama o próximo, nem que seja à custa da vossa. Quem vos mandou difamá-lo? Expiai vossa maldade.
2- Quando se trata de murmuração, isso é de revelação injusta de mal verdadeiro, não há retratar o dito, que seria mentir, e então? Procurai, por todos os meios, em vosso poder, atalhar o mal, rogando aos que vos ouviram a murmuração a não propalem, em vista da injustiça, que cometestes; fazei por atenuar as outras consequências, compensar os prejuízos, talvez as ruins originadas do vosso pecado. 

Ah que bem disse o Sábio: Aquele que guarda a sua boca, e a sua língua, guarda a sua alma de grandes apertos (Pv XXI).

Ponde Senhor, uma guarda à minha boca, e aos meus lábios uma porta que os preserve (Sl CXL).

__________
Excerto do Goffiné, 1910, 7ª edição. P. 593-597.
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A Tradição é linda.

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Palavras de Santo Agostinho

"A oração é uma chave do céu; sobem as preces, desce a divina misericórdia. Por mais baixa que seja a Terra, e alto o Céu, Deus ouve a língua do homem, quando este tem limpa a consciência."