Translate

Procure no blog

quinta-feira, 28 de abril de 2016

São Pedro Chanel, Religioso e Mártir

Infância e Juventude

Pedro Maria Chanel nasceu de uma família humilde e numerosa na aldeia de Potière, perto da cidade de Cuet, França, em 12 de julho de 1803. A referida família era composta pelos pais e oito filhos. Desde crianças colaborava nos pequenos trabalhos da casa, uma granja da família, alimentando as galinhas com cevada e aveia e, como um pequeno pastor, cuidado de suas três vacas, quatro cordeiros e duas cabras. Estava sempre acompanhado do seu fiel cão, um sólido bastão na mão e nos bolsos sua frugal comida do meio dia. Quando adolescente começou a estudar o latim para preparar-se bem e chegar um dia a ser sacerdote, vocação para a qual se sentia atraído. Já desde jovem sua piedade e modéstia edificavam a todos. Depois de cinco anos no seminário menor e três no seminário maior, foi ordenado sacerdote em 15 de julho de 1827.

Aprovação da Sociedade de Maria

Logo após a ordenação se uniu a um grupo de sacerdotes amigos que haviam se consagrado à Virgem Nossa Senhora de Fourvière, em Lyon, e mais tarde formaram a “Sociedade de Maria”, chamada também de Padres Maristas. Eles receberam a aprovação da Sociedade por parte da Santa Sé, e com o prévio consentimento do Padre Colin, Superior geral, aceitaram o encargo de ser missionários na Oceania. Para cumprir com essa recomendação do Papa, o primeiro grupo partiu da França em 24 de dezembro de 1836. Era composto por Mons. Pompallier, ordenado bispo e nomeado vigário apostólico da Oceania ocidental, quatro sacerdotes e três irmãos, que como valentes aventureiros do Evangelho chegaram ao seu destino 11 meses depois. Mons. Pompallier era o chefe da missão, e ao chegar no destino os distribuiu pela Nova Zelândia e outras ilhas do Pacífico. Entre eles estava o Padre Chanel, que com o irmão marista Marie Nizier foram destinados à ilha de Futuna, para trabalhar com os nativos e através do Evangelho convertê-los ao cristianismo, missão que levaria quase quatro anos.

A aventura Marista

A aprovação da Sociedade Maria, muito desejada e obtida apesar das dificuldades e depois de numerosas empreitadas, suscitou um entusiasmo fácil de entender. Os preparativos relacionados com o envio de missionários constituíram uma preocupação importante para os responsáveis da Sociedade; era necessário, o mais cedo possível, responder à confiança das autoridades romanas. Foi primordial escolher e designar o grupo de Sacerdotes e de irmãos missionários, prever o mobiliário, os recursos financeiros indispensáveis e reunir o material necessário... sem contar com os vários trâmites que foram necessários empreender com as autoridades civis. Esse primeiro grupo estava formado, , pelo Mons. Pompallier, como já foi dito, os Padres Chanel, Bataillon, Servant e Bret, e os irmãos Marie Nizier, Miguel e José Javier. Em L’Hermitage, o Padre Champagnat manifestava muita alegria e, ao mesmo tempo, certa tristeza por não poder também partir para a Oceania. Mas tinha a satisfação de haver preparado dois dos seus filhos espirituais para tão longínqua missão: os irmãos Marie Nizier e Miguel. Seriam acompanhados pelo irmão José Javier Luzy, que vinha de Belley, onde estava a serviço dos Padres maristas. Durante certo tempo este irmão também esteve se preparando em L’Hermitage para completar tão delicada e responsável delegação missionária.

Missionário de alma

O Padre Chanel chegou a Lyon em 5 de outubro de 1836, com o objetivo de organizar a partida do grupo missionário escolhido. Em seguida viajou para L’Hermitage, onde falou com os irmãos durante o retiro espiritual. Logo voltou para Lyon com os dois jovens maristas que o acompanharam, os irmãos Marie Nizier e Miguel, e se alojaram na residência religiosa “Providência do Caminho novo”. Depois de se despedirem da Virgem, Nossa Senhora de Fourvière, os missionários viajaram para Paris de “diligência”, veículo especial que se usava naquela época para as longas viagens. Porém, eles viajaram na segunda classe. 

Em Paris, encontraram-se com o grupo de Mons. Pompallier, que havia chegado alguns dias antes. Todos se alojaram no seminário de “Missões Estrangeiras”, beneficiando-se de sua generosa hospitalidade. De Paris partiram para o Havre, porto onde embarcariam. Ali tiveram que permanecer quase dois meses. O Padre Chanel escreveu em seu diário: "Chegamos ao Havre em 27 de outubro, nos alojamos na casa da Sra. Dodard, em Ingouville. Ficamos comodamente instalados, com calefação e bem alimentados, sem que tivéssemos de pagar nenhum centavo”. 

Fora, chovia e nevava. "Esta senhora, escreve o irmão Marie Nizier, é muito boa e se acha honrada em receber os missionários. Faz 16 anos que os acolhe.” A senhora Dodard, octogenária, adoeceu enquanto os Maristas se encontravam alojados em sua casa, e eles deram-lhe assistência durante sua última enfermidade. Mons. Pompallier lhe administrou os últimos sacramentos, e ela morreu alguns dias depois da partida dos missionários.

O embarque estava previsto para o dia 15 de novembro, porém houve um atraso porque ainda não havia chegado toda a mercadoria e o tempo também não era favorável. Finalmente, em 24 de dezembro, véspera de Natal, eles puderam embarcar no navio chamado “Delphine”. Não era muito grande, mas estava “bem organizado, limpo e bonito”. Como imaginamos o referido barco? Que comodidades gostaríamos ter para uma tão longa viagem? Verdadeiramente, nossos missionários deveriam ser valentes e decididos. Somente a glória de Deus e a salvação das almas os fortaleciam. Verdadeiros heróis!

O início da viagem foi marcado por vários acontecimentos: ao tentar sair do cais, a embarcação não se movia... Talvez alguma avaria no momento de zarpar?... Somente saberiam dias depois. Partiram com certo nervosismo e preocupação, e já em alto mar chegaram os enjôos; o medo de se chocar com algum barco perigosamente próximo, as manobras que tiveram que realizar, o tumulto causado pelo vento, os gritos e as ordens dadas fizeram o Padre Chanel acreditar que um passageiro havia caído no mar e imediatamente subiu à ponte para lhe dar absolvição.

Logo souberam do ocorrido: ao desamarrar os cabos, os suportes do timão se romperam. Havia uma única solução: navegar lentamente para chegar a um porto e ali efetuar a reparação. Dirigiram-se à ilha de Tenerife, e em 8 de janeiro entraram na enseada de Santa Cruz.

Escala forçada

A reparação do timão foi demorada; 50 dias para por a peça em boas condições e perfeito funcionamento. Por sua vez os efeitos da navegação também se fizeram sentir... o Padre Servant e o irmão José Javier se encontravam seriamente doentes, e o padre Chanel, com disenteria. Por esses motivos tiveram que permanecer um mês e meio em terra e alugar uma casa na cidade, esperando a recuperação física e o conserto da embarcação.

De Santa Cruz de Tenerife a Valparaíso

Em 28 de fevereiro de 1837 o navio partiu rumo ao mar. Os dois enfermos, entretanto, ainda estavam convalescentes, e foram se restabelecendo progressivamente. Porém, o Padre Bret, compatriota e amigo do Padre Chanel, contraiu uma grave enfermidade, e morreu um mês depois em meio ao mar. Essa longa travessia, sem escalas através do Atlântico, serviu para que o Padre Chanel pudesse exercer de algum modo seu apostolado entre os marinheiros e outros passageiros. As palestras com os irmãos e a preparação à comunhão pascal foram a obra de toda a equipe missionária. Tanto tempo de navegação fez com que os viajantes obtivessem uma resistência notável para suportar os embates, as tormentas e as fortes sacudidelas do barco, especialmente ao passar pelo Cabo de Hornos sem sofrer os enjôos característicos do mar. Todos experimentaram muita alegria quando, em 28 de junho de 1837, entraram no porto de Valparaíso (Chile), exatamente quatro meses depois da saída de Santa Cruz de Tenerife. Os Padres do Sagrado Coração, Congregação religiosa missionária, e também companheiros de viagem, chegaram ao seu destino. Os Maristas se alojaram na casa que aqueles religiosos já possuíam em Valparaíso.
O barco “Delphine” não continuaria mais sua viagem. Ficaria ali como porto final. Portanto, era necessário descarregar toda bagagem, os objetos pessoas e as caixas com o material destinado à missão, e depositá-los em um lugar seguro até a partida para a Oceania. Os Padres antes mencionados ofereceram sua hospitalidade aos Missionários Maristas durante todo o tempo necessário para preparar a última etapa de sua viagem: receber informações de outros missionários, de viajantes, comerciantes, etc., conhecedores daquela região do mundo, e encontrar um barco que pudesse levá-los a bordo, depois que soubessem o lugar preciso onde deveriam desembarcar.

Para a Polinésia...

Depois de receber várias informações de outros viajantes chegados da Oceania, a incerteza reinava no grupo sobre a direção que deveriam tomar. Não encontrando nenhum navio que fosse para Nova Zelândia, embarcaram em um navio com direção a Taiti.

Saíram de Valparaíso em 10 de agosto de 1837, e depois de um mês de navegação tocaram as ilhas de Gambier, para obter provisões e informar-se sobre o possível lugar onde estabelecer a futura missão.

Os missionários foram muito bem recebidos pelo Vigário Apostólico e os novos cristãos daquelas ilhas já evangelizadas há algum tempo. Tendo chegado ao Taiti, tiveram que deixar o barco e decidir como continuar viagem. A bordo de uma escuna, embarcação fina e pequena, continuaram sua complicada travessia, com o permanente perigo de se chocarem contra as rochas muito numerosas nessa área. As chuvas torrenciais e a escuridão durante a noite vieram complicar ainda mais a situação já bastante preocupante.

Passaram pelo arquipélago de Tonga e não puderam ficar ali porque o rei não deu permissão. Por isso seguiram para a ilha de Wallis, e ali sim, ficaram o Padre Bataillon e o irmão Juan Javier Luzy, para fundar a primeira missão marista em terras da Oceania.

Alguns dias depois chegaram à ilha de Futuna, onde ficaram o Padre Chanel com seu colaborador, o irmão Marie Nizier, depois de haver obtido a permissão de um dos reis da ilha, chamado Niuliki. A recepção dos habitantes de Futuna foi favorável e alguns deles se alegraram com a chegada dos missionários. Primeiro foi a curiosidade, depois rodearem a embarcação, subiram nela e logo os acompanharam sem nenhuma hostilidade.

A autorização para se estabelecer em ilha foi concedida depois de uma longa discussão com Mons. Pompallier, uma vez que o primeiro ministro, Maligi, influenciado por alguns habitantes de Wallis, contrários à religião, se opunham fortemente. Foi necessária a convincente intervenção de um parente do rei, respeitado por sua bravura e autoridade: “Deixemos aos brancos habitarem na ilha, lhes disse, eles podem nos trazer riquezas”. Depois disso veio a calma e os missionários foram convidados a comer com o rei e sua família essa noite. Monsenhor presenteou o rei com uma série de presentes que repartiu com a sua gente.

No dia seguinte, 12 de novembro de 1837, foi o dia fixado para desembarcar com sua pobre equipagem, algumas caixas com míseras provisões e material para a missão. Nesse mesmo dia aconteceu a separação: Mons. Pompallier, o Padre Servant e o irmão Miguel embarcaram para Nova Zelândia. O Padre Chanel ficou definitivamente na ilha de Futuna e não voltaria a vê-los mais. Seu companheiro inseparável será o irmão Marie Nizier. Os dois terão como campo de missão as ilhas de Futuna e Alofi.

Primeiramente tiveram que construir uma casa ou algo que se parecesse com isso para viver; na verdade uma choça coberta com folhas de coqueiros e alguns troncos de árvore. Tudo era tão precário que durante dois meses não sabiam como se proteger da chuva assim como seus pobres pertences.

Enquanto isso, o Padre Chanel sentiu de imediato a necessidade de uma alimentação mais abundante e sã para poder suportar o clima, os trabalhos esgotantes, assim como um mínimo de descanso durante as noites.

Desde o dia 8 de novembro, dia da sua chegada, não tinha podido celebrar nenhuma missa na ilha. Pela especial devoção que o Padre Chanel tinha pela Santíssima Virgem Maria, esta, sem dúvida, lhe inspirou a idéia de escolher o dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, para celebrar a primeira missa em Futuna.

Logo começaram os contatos com as pessoas da ilha para aprender seu idioma e seus costumes, e ensinar a elas a trabalhar a terra, plantar árvores, criar alguns animais domésticos. Também pouco a pouco foi evangelizando-as a fim de convertê-las ao cristianismo na medida em que se encontravam preparados.

O rei Niuliki os apoiou desde o início. Mais tarde, por influências estranhas, começou a manifestar sua oposição. Mesmo que no início tenha havido notáveis conversões, logo começaram as dificuldades de todo tipo para o Padre Chanel e o irmão Marie Nizier. Surgiram as oposições “aos brancos e à sua nova religião” por parte de alguns nativos. Porém, sem desanimar, nosso santo missionário de Futuna se empenhou cada vez mais com energia em sua pregação e por isso aguçou ainda mais a luta. Percorreu a ilha em todas as direções e sem descanso, enfrentado tudo, constantemente, com amável paciência e coragem.

Martírio do Padre Pedro Chanel

Mais uma vez, viu o perigo sobre sua cabeça, pois seus amigos declarados o perseguiam. E isso ocorreu realmente do dia 28 de abril de 1841. Das ameaças eles passaram aos fatos. Um chefe nativo que se opunha ferozmente ao seu trabalho missionário se apresentou numa manhã com vários de seus cúmplices na casa do Padre Chanel para matá-lo. Um dos homens com um machado deu-lhe dois golpes na cabeça: o sangue começou a escorrer abundantemente. Outro o golpeou com um grosso bastão; e o chefe que rondava a casa como um animal feroz ao redor da sua presa, saltou por uma janela lançando-se sobre o Padre Chanel com seu facão e o cravou na cabeça. Assim morreu o “homem de grande coração” como o chamavam os homens de Futuna. Não obstante, o cristianismo continuou se propagando na ilha através de outros missionários. Seu martírio foi reconhecido pela Igreja que o declarou santo, quando em 1954 realizou a Canonização de São Pedro Chanel em Roma, determinando sua festa para o dia 28 de abril. O que chama a atenção agora, é constatar em que grau São Pedro Chanel se converteu em algo muito familiar para os habitantes de Futuna. É um deles. A Sociedade de Maria, que mandou transferir para Lyon os restos mortais dele em 1842, os devolveu aos habitantes de Futuna em 1977, a pedido deles. Seus restos mortais, como preciosas relíquias, descansam hoje no lugar do seu martírio, dentro de uma grande basílica construída em 1986.

Beata Maria Luisa de Jesus Trichet

Nasceu em Poitiers (França), no dia 7 de maio de 1684 e foi batizada no mesmo dia. A quarta de uma família de oito filhos, recebeu uma sólida educação cristã tanto na família como na escola, pois frequentou o colégio de religiosas, no Convento de Notre-Dame, onde encontrou um ambiente de formação muito a seu gosto: as educadoras levavam uma vida contemplativa na ação.

Cresceu no ambiente de oito irmãos sob a direção maternal de uma mulher de caráter forte, e de um pai habituado a exercer o direito e a julgar com retidão como consultor jurídico do governo da cidade.

A sombra da cruz projetou-se sobre esta família: vitimada por grave doença, sua irmã Teresa falece, enquanto a irmã mais velha, Joana, fica paralítica a partir dos 13 anos de idade até à morte. Sempre que regressava a casa, Maria Luísa ocupava-se carinhosamente de sua irmã paralítica, familiarizando-se com a dor e o carinho para com os doentes.

No ano de 1701, Isabel, outra irmã, regressou emocionada do sermão que acabara de ouvir numa igreja da cidade. Maria Luísa intuiu que ela havia feito uma grande descoberta. Indaga a razão da grande emoção e chega ao conhecimento de que sua irmã tinha ouvido a pregação e se tinha confessado com o capelão do Hospital, Padre Luís Maria Grignion de Montfort. Sua fama de pregador e de confessor era já notável entre a juventude desta região do Poitou.
Maria Luísa também quis conhecer e ouvir o fervoroso sacerdote. No confessionário dá-se o primeiro encontro entre estas duas almas sedentas de Deus, ambas desejosas de dedicação à salvação dos homens e ao amparo dos desprotegidos. Diante dos sinais evidentes de vocação, o Padre Montfort afirmou sem rodeios: "Foi Nossa Senhora que te enviou. Tornar-te-ás religiosa".

Estas palavras marcaram o compromisso entre estas duas grandes almas, um compromisso para a glória de Deus e louvor de Maria, que eles tanto amavam, compromisso que tinha por base a Sabedoria da cruz que o Verbo Encarnado quis abraçar.

Espontaneamente Maria Luísa oferece seus serviços no hospital: ela consagra boa parte de seu tempo aos pobres e aos enfermos. Mas logo o Padre de Montfort lhe pede para "permanecer" ali. A este chamado ela responde com um "sim" total. No hospital não há posto livre para ela entrar na qualidade de "governante"; não importa, Maria Luísa simplesmente consegue ser admitida como "pobre". Tinha apenas 19 anos.

Sua mãe lhe havia dito: "Você ficará louca como este sacerdote". Após um doloroso noviciado entre incompreensões e obstáculos, Maria Luísa dedica-se ao serviço dos pobres e doentes do hospital de Poitiers. Entretanto, ficou entregue aos cuidados do Espírito Santo, já que o Padre Capelão iria se ausentar por um período de 10 anos para se dedicar à pregação de missões populares na sua querida Bretanha.

No dia 2 de fevereiro de 1703, Maria Luísa emitiu os votos religiosos sob a orientação do seu confessor, tornando-se assim a primeira pedra da Congregação das Filhas da Sabedoria. O novo instituto, à sombra da cruz e sob a proteção de Maria, teria por missão servir os pobres e os doentes e dedicar-se à formação cristã da juventude.

A célebre cruz que São Luís de Montfort desenhou foi colocada no centro do hospital. Maria Luísa levava uma cruz sobre seu hábito cinza, mas sobretudo em seu coração. Com efeito, ela realizava o serviço cansativo de cada dia, a ausência de companheiras, o falecimento de duas de suas irmãs e de seu irmão, jovem sacerdote morto vítima da peste e de sua abnegação.

É o começo de uma aventura que é por sua vez a história da Congregação das Filhas da Sabedoria. Em 1714, chega a primeira companheira, Catarina Brunet; em 1715, acontece a fundação da primeira comunidade em La Rochelle (Charente) com duas novas recrutas: Maria Régnier e Maria Valleau; em 1716, São Luís Maria de Montfort morre prematuramente na idade de 43 anos.

A jovem Congregação se desestabiliza com esta notícia tão dolorosa quanto inesperada. Maria Luísa experimenta a frase escrita por São Luís de Montfort: "Se não se arrisca algo por Deus, não se faz nada de grande por Ele". Durante 43 anos, Maria Luísa de Jesus, só, forma suas companheiras, conduz e dá vida às fundações que se multiplicam: escolas de caridade, visitas e cuidados aos enfermos, sopa popular para os mendigos, gestão de grandes hospitais na França.

Os pobres do hospital de Niort (Deux-Sèvres) a chamam "a Boa Madre Jesus". Seu programa de vida é muito simples: "É necessário que eu ame a Deus oculto em meu próximo" (coro de um cântico composto por São Luís Maria de Montfort destinado às Filhas da Sabedoria).

Quando Madre Maria Luísa morre no dia 28 de abril de 1759, em Saint-Laurent-sur-Sèvre (Vendée), a Congregação conta com 174 religiosas presentes em 36 comunidades, mais a Casa Mãe. Esta discípula de São Luís Maria Grignion de Montfort, e sua colaboradora na fundação da Congregação das Filhas da Sabedoria, descansa junto ao seu mestre na igreja paroquial de Saint-Laurent-sur-Sèvre.

No dia 16 de maio de 1993, Maria Luísa de Jesus Trichet foi declarada beata pelo Papa João Paulo II em Roma.

Santa Gianna Beretta

Gianna Beretta nasce em Magenta (Milão, Itália) aos 04 de outubro de 1922. Desde sua primeira juventude, acolhe plenamente o dom da fé e a educação cristã, recebidas de seus ótimos pais. Esta formação religiosa ensina-lhe a considerar a vida como um dom maravilhoso de Deus, a ter confiança na Providência e a estimar a necessidade e a eficácia da oração.

Durante os anos de estudos e na Universidade, enquanto se dedicava diligentemente aos seus deveres, vincula sua fé com um compromisso generoso de apostolado entre os jovens da Ação Católica e de caridade para com os idosos e os necessitados nas Conferências de São Vicente. Laureada em medicina e cirurgia em 1949 pela Universidade de Pavia (Itália), em 1950 abre seu consultório médico em Mêsero (nos arredores de Milão). Especializa-se em pediatria na Universidade de Milão em 1952 e, entre seus clientes, demonstra especial cuidado para as mães, crianças, idosos e pobres.

Enquanto exercia sua profissão médica, que a considerava como uma «missão», aumenta seu generoso compromisso para com a Ação Católica, e consagra-se intensivamente em ajudar as adolescentes. Através do alpinismo e do esqui, manifesta sua grande alegria de viver e de gozar os encantos da natureza. Através da oração pessoal e da dos outros, questiona-se sobre sua vocação, considerando-a como dom de Deus. Opta pela vocação matrimonial, que a abraça com entusiasmo, assumindo total doação «para formar uma família realmente cristã».

Inicia seu noivado com o engenheiro Pedro Molla. Prepara-se ao matrimônio com expansiva alegria e sorriso. Ao Senhor tudo agradece, e ora. Na basílica de São Martinho, em Magenta, casa aos 24 de setembro de 1955. Transforma-se em mulher totalmente feliz. Em novembro de 1956, já é a radiosa mãe de Pedro Luís; em dezembro de 1957 de Mariolina e, em julho de 1959, de Laura. Com simplicidade e equilíbrio, harmoniza os deveres de mãe, de esposa, de médica e da grande alegria de viver.

Em setembro de 1961, no final do segundo mês de gravidez, vê-se atingida pelo sofrimento e pela dor. Aparece um fibroma no útero. Antes de ser operada, embora sabendo o grave perigo de prosseguir com a gravidez, suplica ao cirurgião que salve a vida que traz em seu seio e, então, entrega-se à Divina Providência e à oração. Com o feliz sucesso da cirurgia, agradece intensamente a Deus a salvação da vida do filho. Passa os sete meses que a distanciam do parto com admirável força de espírito e com a mesma dedicação de mãe e de médica. Receia e teme que seu filho possa nascer doente e suplica a Deus que isto não aconteça.

Alguns dias antes do parto, sempre com grande confiança na Providência, demonstra-se pronta a sacrificar sua vida para salvar a do filho: «Se deveis decidir entre mim e o filho, nenhuma hesitação: escolhei - e isto o exijo - a criança. Salvai-a». Na manhã de 21 de abril de 1962 nasce Joana Manuela. Apesar dos esforços para salvar a vida de ambos, na manhã de 28 de abril, em meio a atrozes dores e após ter repetido a jaculatória «Jesus eu te amo, eu te amo» morre santamente. Tinha 39 anos. Seus funerais transformaram-se em grande manifestação popular de profunda comoção, de fé e de oração. A Serva de Deus repousa no cemitério de Mêsero, distante 4 quilômetros de Magenta, nos arredores de Milão (Itália).

«Meditata immolazione» (imolação meditada), assim Paulo VI definiu o gesto da Beata Gianna recordando, no Ângelus dominical de 23 de setembro de 1973, «uma jovem mãe da Diocese de Milão que, para dar a vida à sua filha sacrificava, com imolação meditada, a própria». É evidente, nas palavras do Santo Padre, a referência cristológica ao Calvário e à Eucaristia. Foi beatificada por João Paulo II no dia 24 de abril de 1994, no Ano Internacional da Família. 

São Luis Maria Grignion de Montfort


"O cristão que não medita sobre os mistérios do Rosário é muito ingrato a Nosso Senhor e mostra o quão pouco ele se preocupa por tudo que o Salvador Divino sofreu para salvar o Mundo." São Luís de Maria G. de Montfort

No dia 28 de abril comemora-se este grande santo que nos ensinou e continua ensinando (através de seus preciosos escritos) como ser devotos verdadeiros da Santíssima Virgem Maria, na escravidão.


Nasceu em 3 de janeiro de 1673, em Montfort-la-Cane (hoje Montfort-sur-Meu), na Bretanha, segundo dos 18 filhos do advogado João Batista e de Joana Roberto de la Vizeule. 

São Luís herdou do pai um temperamento colérico e arrebatado, e dirá depois que "custava-lhe mais vencer sua veemência e a paixão da cólera que todas as demais juntas". Mas conseguiu-o tão bem, que um sacerdote seu companheiro, nos últimos anos de sua vida, atesta que: "Realizou esforços incríveis para vencer sua natural veemência; e o conseguiu, e adquiriu a encantadora virtude da doçura", que atraía multidões.

São Luís Grignion de Montfort sentia também muito pendor pela solidão, sendo comum retirar-se a um canto da casa para entregar-se à oração diante de uma imagem da Santíssima Virgem, rezando principalmente o Rosário. São Luís, por devoção a Nossa Senhora, na Crisma acrescentou ao seu nome o de Maria.

Em 1684 os pais o enviaram para estudar como externo no Colégio Tomás Becket, dos jesuítas de Rennes. Ali passou ele oito anos, com muito bom aproveitamento. Todos os dias, antes de ir para o colégio, ele passava em alguma igreja para fazer uma visita ao Santíssimo Sacramento e a alguma imagem de Nossa Senhora. Muitas vezes, antes de voltar para casa, fazia o mesmo.

Como diz um biógrafo seu, "seu bom coração, cheio de misericórdia e de compaixão para com o próximo, o levava a ocupar-se em amparar os escolares pobres que estudavam com ele no colégio. Não os podendo socorrer com seus próprios recursos, ia solicitar para eles esmolas junto às pessoas caridosas".

Foi isso que o levou a freqüentar um grupo de jovens reunidos por um sacerdote, o Pe. Bellier, aos quais este fazia palestras sobre temas piedosos, e os enviava depois aos hospitais para consolar e instruir os pobres. Era junto destes que o adolescente São Luís passava parte de seus dias de folga.

Concluídos os estudos, decidiu tornar-se sacerdote, dirigindo-se então a Paris. Fez a longa viagem a pé, pedindo de esmola alojamento e comida. Uma benfeitora obteve para ele que entrasse no célebre seminário de Saint Sulpice. Depois de muitas vicissitudes, foi ordenado sacerdote em 1700.

A Capela de São Luís M. Grignion de Montfort, em Pontchâteau, na Bretanha (França)

Durante cinco anos não contínuos, o Padre de Montfort - como era conhecido - trabalhou na Diocese de Poitiers, seja como capelão do Hospital Geral, seja pregando missões nos arrabaldes da cidade, combatendo as blasfêmias, canções obscenas e embriaguezes. No Hospital Geral veio-lhe a idéia de formar uma associação de donzelas, que "dedicou à Sabedoria do Verbo Encarnado, para confundir a falsa sabedoria das pessoas do mundo e estabelecer entre elas a 'loucura' do Evangelho".

Selecionou para isso 12 das jovens pobres mais fervorosas, elegendo como sua superiora uma cega. Mais tarde associou a esse grupo duas jovens da boa burguesia, a futura beata Maria Luísa Trichet e Catarina Brunet. "A sabedoria que preconiza Montfort se inspira, de um lado, na segunda carta de São Paulo aos Coríntios: a cruz, escândalo e loucura para tantos sábios, mas sabedoria de Deus, misteriosa e escondida".

Entretanto os infeccionados pela heresia jansenista - essa espécie de protestantismo disfarçado -, junto com os livres pensadores, começaram uma campanha de calúnia contra esse missionário "extravagante", que pregava uma "devoção exagerada" à Mãe de Deus. Ele precisou dissolver sua associação da Sabedoria e retirar-se do Hospital, apesar dos protestos veementes dos pobres e dos enfermos.

O Pe. de Montfort aproveitou essa ocasião para fazer uma peregrinação a Roma. Na Cidade Eterna, pô-se à disposição do Sumo Pontífice para trabalhar pela salvação das almas em qualquer parte onde este o quisesse enviar. Clemente XI julgou que o missionário seria mais útil em sua própria pátria, ensinando a doutrina cristã às crianças e ao povo e fazendo reflorescer o espírito do cristianismo pela renovação das promessas do batismo. O Papa nomeou-o Missionário Apostólico. Mas estava ele sob a dependência dos bispos, muitos dos quais de tendência jansenista.

Voltando à França, passou a trabalhar com o Pe. Leuduger, que tinha um grupo de missionários dedicados totalmente à evangelização do campo. Foi uma nova experiência para o Pe. Montfort, pois constatou a importância do canto e das grandes procissões nos esforços missionários. Ele escreverá várias dezenas de cantos populares, cujas letras se adaptavam a melodias profanas, muito em voga então.

Seis meses depois, vemo-lo em sua cidade natal, evangelizando a região, tendo associado a si dois leigos, um dos quais será o Irmão Maturin Rangeard, que continuará por 55 anos evangelizando como missionário leigo. Mas esta atividade foi também proibida a Luís Grignion pelo bispo de Saint Malo, por influência dos jansenistas.

Em Nantes ele obteve o cargo de diretor das missões de toda a diocese, tendo ali trabalhado durante dois anos. Dessa época temos o seguinte depoimento de um seu contemporâneo: "O que mais se destacava nele era um dom e uma graça singular para ganhar os corações. Tendo-o ouvido, punha-se nele toda confiança. A confiança pronta e fácil que as pessoas tinham nele era tão grande, que conseguiu estabelecer em várias paróquias as orações da noite, o rosário e a sepultura nos cemitérios [contra o costume de se enterrar nas igrejas]; o que não se tinha podido conseguir, [...] ele o conseguiu na primeira proposta que fez".

A construção do Calvário de Pontchâteau por São Luís M. Grignion de Montfort, em Pontchâteau 

Numa missão em Pontchâteau, o Pe. de Montfort entusiasmou-se com a idéia de erigir um grande calvário em uma colina próxima, e seu entusiasmo contagiou o povo. Durante 15 meses, de 400 a 500 pessoas de todas as idades e condições sociais trabalharam diariamente para aplainar o terreno e montar o calvário. O Pe. de Montfort estava exultante. Tinha já conseguido do bispo de Nantes a autorização para benzê-lo, e estava tudo preparado para o dia 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz. Mas, à véspera desse dia, chegou uma proibição formal do bispo de se proceder à cerimônia. O assunto levantou polêmica e chegou até Versalhes, onde, mal informado, o rei Luís XIV ordenou que demolissem aquilo que lhe apresentavam como uma fortaleza facilmente conquistável pelo inimigo vindo do mar... Em seguida veio a proibição de pregar naquela Diocese.

Por sua devoção ao Rosário, o Pe. de Montfort entrou para a Ordem Terceira de São Domingos, querendo pertencer a uma Ordem que honrava de maneira tão especial a Santíssima Virgem.

Recusado e até expulso de várias Dioceses - uma vez lhe foi interditado até celebrar, tendo ele que partir imediatamente para chegar em tempo à diocese vizinha, a fim de rezar a Missa na festa da Assunção -, soube o missionário que seria bem recebido nas dioceses de Luçon e de La Rochelle, cujos bispos eram meritosamente antijansenistas.

Essas duas dioceses compreendiam uma parte da região da Vandéia, que mais tarde, em 1793, levantar-se-ia contra a sangrenta e atéia Revolução Francesa. Foi na Vandéia que o Pe. de Montfort trabalhou durante os últimos cinco anos de sua vida, implantando naquelas populações uma sólida formação católica. Esta foi, décadas mais tarde, um decisivo fator para a gloriosa e épica Guerra da Vandéia, contra os ímpios revolucionários de 1789. Fonte: clique aqui para ver.

São Paulo da Cruz

Paulo Francisco Danei, nasceu na cidade de Ovada, na Itália, no dia 3 de janeiro de 1694. Paulo foi o primeiro filho que sobreviveu depois da morte de 11 irmãos. Depois dele virão outros 5 filhos, para Lucas Danei e Ana Maria Massari, seus pais. Cristãos autênticos, seus pais e principalmente sua mãe, devota da Paixão da Jesus ensinou os filhos a contemplarem Jesus Cristo Crucificado. Dos irmãos, João Batista será o mais fiel amigo e companheiro de Paulo Danei, sobretudo no carisma da Congregação Passionista.

Aos 19 anos, Paulo, depois de ouvir um sermão, fez uma confissão geral dos pecados e prometeu servir a Deus e amá-lo sempre, ele chamou de “minha conversão”. Aos 26 anos, depois que saia da Missa, Paulo se viu vestido de hábito preto e do lado direito do peito, uma cruz branca e o nome de Jesus também escrito em letras brancas. Fez um retiro de 40 dias e escreveu a Regra da Congregação que Deus o chamava a fundar, a Congregação dos “pobres de Jesus”. Antes de iniciar o retiro, Paulo vestiu o hábito preto, conforme a inspiração. Era o dia 22 de novembro de 1720. Este dia ficou sendo o dia da fundação da Congregação Passionista.

Em 1721, Paulo fez o voto de propagar a Paixão de Jesus Cristo, na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Recebeu a Ordenação Presbiteral pela imposição das mãos do papa Bento XIII, na Basílica de São Pedro e com a licença do mesmo começou a reunir companheiros para a nova Congregação religiosa.

Em 1741, o Papa Bento XIV aprovou as regras da Congregação da Paixão de Jesus Cristo. Paulo e os primeiros companheiros fizeram os votos de pobreza, castidade e obediência e ele passou a se chamar: Paulo da Cruz. A Congregação foi crescendo, embora Paulo tenha sido provado de diversas formas, como: doenças físicas, aridez espiritual, perseguição por parte das Ordens mendicantes, incompreensão, calúnias, etc.
Símbolo dos Passionistas
Paulo da Cruz é considerado o maior místico do século XVIII. Escreveu mais de 30 mil cartas espirituais, ensinando sacerdotes, religiosas e leigos, a experimentar o amor de Deus, presente na cruz de Jesus. Amou a Eucaristia e Maria. Amou e serviu os pobres, os enfermos e os pecadores. Missionário e profeta anunciou o amor incondicional de Deus, na Paixão no mundo. Profeta da Páscoa apontou a vida onde a dor e a morte buscavam triunfar. DEUS MORREU POR AMOR. Esta verdade, segundo Paulo, deveria ser proclamada por todo cristão, sem medo e com alegria.

No ano de 1769, a Igreja reconheceu a Congregação da Paixão de Jesus Cristo. Paulo da Cruz desejou então ver os passionistas em todas as partes do mundo, porém ele morreu antes de realizar esse sonho. Quando da sua morte, a 18 de outubro de 1775, com 81 anos de idade, a Congregação ainda estava só na Itália. Mas, os passionistas que vieram depois levaram adiante o ideal de Paulo. Hoje os passionistas estão em 60 países e nos 05 Continentes. São aproximadamente 2.300 religiosos no mundo, anunciando a Paixão de Cristo, para que a humanidade aprenda a ciência do amor divino.

São Paulo da Cruz foi beatificado no ano de 1853 e canonizado em 1867, pelo papa Pio IX.

Frases marcantes de São Paulo da Cruz:

No rosto do pobre está esculpido o nome de Jesus.

O mal do mundo é o esquecimento da Paixão de Cristo. O remédio para curar todos os males é a Memória da Paixão do Senhor.

Do mar das dores de Maria, se chega ao oceano infinito do amor de Jesus Crucificado.

Milagres aceitos pela Igreja para a beatificação de São Paulo da Cruz:

1- Cura de Francisco Maria Giorgi, em Fondi, Itália, de 9 anos de idade, com aneurisma no coração e tifo.

2 – Cura de Maria Rollo, em Roccasecca, região de Nápoles, Itália, de câncer.

Milagres aceitos pela Igreja para a canonização de São Paulo da Cruz:

1 – Cura de Rosa de Alena, de Campo de Mele, diocese de Gaeta, Itália, de câncer.

2 – Multiplicação do trigo durante a seca, para os passionistas, no convento de Sant’Angelo de Vetralla (Itália) e para os pobres que vinham buscar pães.
__________

São Paulo da Cruz, Confessor e Fundador

"Profunda caridade para com o próximo, aliada a uma vida intensamente mística e um zelo ardente pela Sagrada Liturgia. Seja ele um modelo para todos os sacerdotes de Cristo!"

Relatos sobre São Paulo da Cruz e a Santa Missa*

Este grande Santo, fundador da Congregação da Paixão de Jesus Cristo, comumente conhecidos como os Passionistas, nasceu como Francisco Danei Massari, em Ovada, Itália, aos 3 de Janeiro de 1694.

Apaixonado pela Paixão de Cristo, dedicou-se a uma vida de solidão e pobreza e idealizou a fundação de uma congregação. Foi ordenado sacerdote pelas mãos do Papa Bento XIII em 07/06/1727, na Basílica de São Pedro, onde futuramente foi canonizado, em 1866, pelo Papa Pio IX. As Regras foram aprovadas pelo Papa Bento XIV em 1741.

Gostaria de transcrever algumas passagens de uma biografia sua, em que se fala de seu amor zeloso pela Sagrada Liturgia.

Há quem tente identificar o zelo pelas rubricas com um espírito distante do amor ao próximo ou superficial na vida espiritual. Neste caro Santo encontramos o contrário: uma profunda caridade para com o próximo, aliada a uma vida intensamente mística e um zelo ardente pela Sagrada Liturgia. Seja ele um modelo para todos os sacerdotes de Cristo! Eu diria que esta é a forma mais completa e autêntica da ARS CELEBRANDI! São Paulo da Cruz, rogai por nós!

O SANTO NO ALTAR

O nosso santo é, pois, sacerdote!... Vai tomar nas mãos o sangue do Cordeiro divino e oferecer a Vítima imaculada... Tudo eram transportes de alegria e êxtases de amor... (...) Imaginemos com que fé e amor subiria Paulo ao altar!

Apesar de absorto nos augustos mistérios, cumpria escrupulosamente as cerimônias, nada julgando de somenos nas coisas de Deus. Inflamava-se-lhe paulatinamente o rosto e lágrimas copiosas umedeciam os paramentos sagrados. Com o decorrer dos tempos, diminuíram as lágrimas, particularmente nas aridezes e desolações espirituais. Porém, jamais deixou de chorar depois da Consagração.

Qual a fonte misteriosa e inesgotável dessas lágrimas? Ouçamo-lo em palestra com seus filhos. Acompanhai a Jesus em sua Paixão e Morte, porque a missa é a renovação do Sacrifício da Cruz. Antes de celebrardes revesti-vos dos sofrimentos de Jesus Crucificado e levai ao altar as necessidades de todo o mundo.

Quando celebrava, afigurava-se-lhe estar no Calvário, ao pé da Cruz, em companhia da Mãe das Dores e do Discípulo predileto, a contemplar Jesus em suas penas. Essa a causa de tantas lágrimas, verdadeiro sangue da alma que, mesclado com o Sangue divino do Cordeiro, eram oferecidas ao Eterno Pai para aplacá-Lo e atrair sobre os homens graças e benefícios.

Revestir-se de Jesus Crucificado antes do santo Sacrifício, Paulo o fazia diariamente, pois não subia ao altar sem macerar com disciplina terminada em agudas pontas, enquanto meditava a dolorosa Paixão do Senhor, unindo-se espiritual e corporalmente aos tormentos do seu Deus. Terminada a santa missa, retirava-se a lugar solitário, entregando-se aos mais vivos sentimentos de gratidão e amor. E prescreveu nas santas Regras este método de preparação e ação de graças à santa missa.

Ao comentar as palavras do Evangelho COENACULUM STRATUM, dizia ser o cenáculo o coração do padre, cuja integridade deve ser defendida a todo custo, mantendo-se sempre acesas as lâmpadas da fé e da caridade. Comparava também o coração sacerdotal ao sepulcro de N. Senhor, sepulcro virgem, onde ninguém fora depositado. E acrescentava: O coração do sacerdote deve ser puro e animado de viva fé, de grande esperança, de ardentíssima caridade e veemente desejo da glória de Deus e da salvação das almas.

Zeloso da rigorosa observância das rubricas, corrigia as menores faltas. Velava outrossim pelo asseio das alfaias sagradas. Tudo o que serve ao santo Sacrifício, dizia, deve ser limpo, sem a menor mancha. Vez por outra mostrou N. Senhor com prodígios quão agradável lhe era a missa celebrada pelo seu fiel servo.

Celebrava certo dia na capela do mosteiro de Santa Luzia, em Corneto. Tinha como ajudante o ilustre personagem Domingos Constantini. Pouco antes da Consagração, envolveu-o tênue nuvem de incenso, embalsamando o santuário de perfume desconhecido, enquanto o santo se elevava a cerca de dois palmos acima do supedâneo. Terminada a Consagração, envolto sempre naquela misteriosa nuvem, alçou-se novamente ao ar, com os braços abertos. Dir-se-ia um Serafim em oração.

O piedoso Constantini de volta à casa, maravilhado, relatou o fato, glorificando a Deus, tão admirável nos seus santos.
_________

Por Pe. Luís Teresa de Jesus Agonizante, Vida de São Paulo da Cruz, Capítulo XII.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Meditações

Salvação é a única coisa necessária

Porro unum est necessarium – Uma só coisa é necessária (Lc. 10, 42).


Sumário. Não é preciso que neste mundo sejamos cumulados de dignidades, que tenhamos riquezas, boa saúde, gozos terrestres; é necessário tão somente que nos salvemos. Não há meio termo: se não nos salvarmos, seremos condenados; estaremos ou sempre felizes no céu, ou sempre infelizes no inferno! Por isso avisa-nos o Senhor, que amontoemos tesouros, já não neste mundo, mas no céu, onde a ferrugem e os vermes não os consomem, nem os desenterram e roubam os ladrões.

I. Não é necessário que neste mundo sejamos cumulados de dignidades, que tenhamos riquezas, boa saúde e gozos terrestres; mas necessário é que nos salvemos. Não há meio termo: se não nos salvarmos, seremos condenados. Depois desta breve vida seremos ou para sempre felizes no paraíso, ou para sempre desgraçados no inferno.

Quantos mundanos, que outrora gozaram abundância de riquezas e honras, foram elevados às mais altas dignidades, quiçá a tronos, estão agora no inferno! Ali todas as prosperidades gozadas neste mundo só lhes servem para sua maior dor e desesperação. – Eis o que nos avisa o Senhor: Nolite thesaurizare vobis thesauros in terra – Não queirais ajuntar tesouros na terra; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem a ferrugem e os vermes, e onde os ladrões não os desenterram nem roubam (1). Todos os bens terrestres se perdem na hora da morte; mas os bens espirituais são tesouros incomparavelmente mais preciosos e duram eternamente.

Deus manifestou-nos a vontade de que todos sejam salvos, e a todos dá o auxílio para se salvarem. Quem se perder, perder-se-á por culpa própria, e isto será a sua pena mais grave no inferno. Vindicta carnis impii, ignis et vermis (2) – ―A vingança da carne do ímpio será o fogo e o verme. O fogo e o verme roedor (isto é, o remorso da consciência), serão os algozes do réprobo para vingança de seus pecados; mas o verme roedor o atormentará eternamente muito mais que o fogo. – Que dor não causa neste mundo a perda de um objeto de valor, de um diamante, de um relógio, de uma bolsa com dinheiro, mormente quando a perda se deu por descuido próprio? A lembrança da perda faz perder o apetite e o sono, posto que haja esperança de remediá-la de outra maneira. Qual não será então o tormento do réprobo ao lembrar-se que por sua culpa própria perdeu o seu Deus e o paraíso, sem esperança de poder ainda possuí-los?

II. Ergo erravimus (3) – ―Logo nos extraviamos do caminho. Eis aí o que fará os desgraçados réprobos chorarem eternamente: extraviamo-nos do caminho perdendo-nos voluntariamente, e não há mais remédio para o nosso erro. Para todas as desgraças que nos podem sobrevir neste mundo, acha-se com o tempo algum remédio, ou na mudança das circunstâncias ou ao menos na santa resignação à vontade divina. Mas chegados que formos à eternidade, nenhum remédio nos poderá valer, se para desgraça nossa tivéssemos errado o caminho do céu.

Por isso exorta-nos o apóstolo São Paulo a que nos empenhemos na obra da salvação com temor e tremor, isto é, com medo de a perdermos: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (4). Este medo fará com que andemos com cautela no caminho do céu e fujamos das ocasiões perigosas e nos recomendemos continuamente a Deus, e deste modo sermos salvos. Roguemos ao Senhor, queira gravar bem fundo em nosso espírito este pensamento, que do último suspiro na hora da morte dependerá o sermos eternamente bem-aventurados ou eternamente desgraçados sem esperança de remédio.

Ó meu Deus, tenho muitas vezes desprezado a vossa graça; mas o Profeta assegura-me que sois misericordioso para com aquele que Vos procura: Bonus est Dominus animae quaerenti illum (5). Outrora fugia de Vós, mas agora Vos procuro; não desejo e não amo senão a Vós; por piedade, não me desprezeis, lembrai-Vos do sangue que por mim derramastes. Esse sangue e a vossa intercessão, ó Mãe de Deus, Maria, são todas as minhas esperanças.

---------- 
1. Matth. 6, 19. 
2. Ecclus. 7, 19.
3. Sap. 5, 6. 
4. Phil. 2, 12. 
5. Thren. 3, 25.
Festa de Terceira Classe
Paramentos Brancos

Epístola

II Timóteo 4, 1-8
1 Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há-de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino: 2 prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, corrige, admoesta com toda a paciência e doutrina, 3 porque virá tempo em que (muitos) não suportarão a sã doutrina, mas acumularão mestres em volta de si, ao sabor das suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir. 4 Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas. 6 Tu, porém, vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos, faze a obra de evangelista, cumpre o teu ministério. 6 Quanto a mim, estou já oferecido em libação (derramando o meu sangue), e o tempo da minha partida avizinha-se. 7 Combati, até ao fim, o bom combate, acabei a minha carreira, guardei a fé. 8 De resto, está-me preparada a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; porém não só a mim, mas também àqueles que esperam com amor a sua vinda.

Santo Evangelho

São Mateus 5, 13-19
13 Vós sois o sal da terra. Porém, se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; 15 nem se acende uma lucerna, e se põe debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa. 16 Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.1 7 Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas; não vim (para os) abolir, mas sim (para os) cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe da lei um só jota ou um só ápice, sem que seja tudo cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no reino dos céus; mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus.

São Pedro Canísio, Doutor

São Pedro Canísio, baluarte antiprotestante *

Pedro Canísio é Doutor da Igreja, conhecido como Martelo dos hereges, foi um dos mais destacados líderes da Contra-Reforma católica. Várias nações da Europa Central devem-lhe a perseverança na verdadeira fé.

Natural de Nimega, na Holanda, onde nasceu em 8 de maio de 1521, filho de Jacob Canísio, burgomestre local, e Egídia van Houweningen, Pedro perdeu a mãe aos dois anos de idade. Na idade escolar, foi enviado a Colônia para o estudo de artes, direito civil e teologia. Aos 19 anos recebeu o grau de doutor em direito civil, e foi para Louvain estudar direito canônico.

Fez então os exercícios espirituais com o Beato Pedro Fabro — o primeiro discípulo de Santo Inácio de Loyola — e decidiu dedicar sua vida à evangelização como membro da Companhia de Jesus. No dia 8 de maio de 1543, em Colônia, foi recebido como noviço por outro dos primeiros jesuítas, Padre Pedro Lefèvre. Apenas ordenado em 1546, foi julgado digno de substituí-lo como superior. Em Colônia, fundou a primeira casa da Companhia de Jesus em terras alemãs.

Naquela época tumultuosa, em que os erros de Lutero contagiavam um clero e uma sociedade decadentes, o próprio Arcebispo de Colônia, Hermann de Weda, aderiu à heresia do monge apóstata e tentou arrastar a ela seus diocesanos, como infelizmente muitos outros já haviam feito. Mas os diocesanos de Colônia reagiram e escolheram o Pe. Canísio para pedir ao Núncio Apostólico, ao Imperador Carlos V e ao Arquiduque George da Áustria a deposição desse mau pastor. O Papa excomungou Hermann e o substituiu por um digno prelado.

Brilhante ação no Concílio de Trento






Suspensas as sessões do Concílio, Santo Inácio de Loyola chamou a Roma Pedro Canísio. Os dois santos tinham necessidade de se conhecerem pessoalmente.O Cardeal Othon Truchess, Bispo de Augsburgo, que conheceu então o Padre Canísio, admirado por sua ciência e virtude, quis levá-lo ao Concílio de Trento como seu teólogo. Tendo consultado Santo Inácio a respeito, este respondeu que a escolha não podia ter sido melhor. Embora tenha tido a oportunidade de falar só duas vezes na ilustre assembléia, ele o fez com muita erudição, causando admiração nos presentes. Com o Padre Laynez, teólogo do Papa no Concílio –– depois segundo Superior Geral dos Jesuítas –– foi encarregado de fazer um levantamento exato dos erros dos hereges a respeito dos Sacramentos; e de, baseado na Tradição, traçar sobre eles regras definitivas.



Formação dos contra-reformadores

“Tudo, no tempo de Inácio, estava para ser fundado: ele necessitava de mestres capazes de eclipsar seus rivais heréticos. Sabe-se que Lutero deveu uma parte de seu poder à sua eloqüência ardente, à sua facilidade prodigiosa para tratar as matérias filosóficas e religiosas em sua língua materna. Os discípulos que deviam sucedê-lo em seu ensino o imitavam e adquiriam bem depressa esse prestígio que deslumbra os espíritos fracos. Inácio formou mestres que superaram rapidamente os pretendidos reformadores”.(1)

Durante cinco meses, o Pe. Canísio permaneceu na Casa-Mãe dos Jesuítas em Roma. Depois disso Santo Inácio enviou-o para ensinar retórica no colégio de Messina. Queria o superior experimentar sua virtude, pois, após ter brilhado no Concílio, poderia pretender mais honrosa posição. Canísio era, entretanto, de outra têmpera, e a despretensão foi uma de suas virtudes mais características. Um ano depois voltou ele a Roma, desta vez para pronunciar os votos definitivos.

Reitor da Universidade de Ingolstadt

Portrait Pope Paul III Farnese by Titian (1543)


Foi nessa época que o Duque da Baviera, Guilherme III, pediu ao Papa Paulo III que lhe enviasse alguns professores da Companhia de Jesus para a Universidade de Ingolstadt. Santo Inácio escolheu para a missão Canísio, le Jay e Salmeron, três dos seus mais caros discípulos. No caminho o Pe. Canísio parou em Bolonha, onde recebeu o título de Doutor em Teologia. No dia 13 novembro de 1549, os três jesuítas chegaram a Ingolstadt. Lá, Pedro Canísio ensinou teologia, catequizou e pregou. No ano seguinte foi eleito reitor da Universidade. Mas a obediência destinava-lhe outro campo de atividade. Em 1552, Santo Inácio enviou-o ao novo colégio da Companhia, em Viena. Na Áustria, perigava a fé. Não só o clero secular e as ordens religiosas, como também as escolas, estavam infectados pelos gérmens da heresia luterana. Havia cidades sem pastor, os sacramentos estavam abandonados, não se celebravam mais cerimônias religiosas. Nessa triste situação, Canísio multiplicou-se por si mesmo, pregando na corte, ao povo e às crianças. Durante a peste que assolou o país, pregou a reconversão a Deus e assistiu heroicamente os empestados e os moribundos. Para piorar as coisas, o Arquiduque Maximiliano, filho mais velho de Ferdinando I, nomeou como pregador da corte um padre casado e adepto da pseudo-reforma de Lutero. Pedro Canísio reagiu, tendo escrito e falado diretamente ao Imperador contra tal situação, e se opôs diretamente ao herege em disputas públicas e em sermões. O padre apóstata foi expulso da corte, fato que Maximiliano não perdoará a Canísio. O Imperador ofereceu-lhe a sé vacante de Viena, mas o jesuíta recusou peremptoriamente o convite. Em 1555, vemo-lo junto ao Imperador na Dieta de Augsburgo. Nesse ano e no seguinte ele pregou em Praga, sendo muito perseguido pelos hereges hussitas locais.

A Summa de São Pedro Canísio e o catecismo


O Imperador Ferdinando havia pedido a Santo Inácio um apanhado curto e sólido da doutrina católica, capaz de refutar inúmeros panfletos protestantes contra a Fé. Canísio foi incumbido dessa tarefa, surgindo a Summa doctrinae christianae. Esta obra e o Catecismo do Concílio de Trento, representarão os dois monumentos do triunfo da Igreja sobre a doutrina de Lutero. Ferdinando divulgou tal súmula por todo seu Império, e Felipe II, da Espanha, a fez imprimir e distribuir em seus Estados do novo e velho continentes.

Dessa súmula diz o bem-aventurado Papa Pio IX, no breve de beatificação de Pedro Canísio: “Tendo notado que a heresia se propagava por toda parte por meio de pequenos livros, Canísio pensou que não havia melhor remédio contra o mal do que um bom resumo da doutrina cristã. Ele compôs então o seu, mas com tanta exatidão, clareza e precisão, que não existe outro tão próprio para instruir e confirmar os povos na Fé católica”.(2)

Ainda em 1556 ele abriu colégios da Companhia em Ingolstadt e Praga, e nesse mesmo ano foi nomeado primeiro provincial da Alta Germânica, que abarcava Suábia, Baviera, Boêmia, Hungria, e a Baixa e Alta Áustria.

O santo missionário era requisitado em toda parte. Durante o inverno de 1556-1557, atuou como representante do Imperador na Dieta de Ratisbona, em cuja catedral pregou.
Brilhantes embates contra o luteranismo

Por escolha dos príncipes católicos e ordem do Papa, tomou parte nas discussões religiosas de Worms com os luteranos, refutando Melânckton, discípulo predileto de Lutero. Foi muito hábil, conseguindo que os protestantes das várias seitas se desentendessem entre si, e a sessão foi suspensa.

Pouco depois, pregou e confirmou na fé os católicos da Alsácia e de Friburgo. A pedido do Arquiduque Alberto, foi para a cidade de Straubing, cujos pastores haviam debandado e recomendado ao povo que deixassem a fé católica. Durante seis semanas, Pedro Canísio pregou até quatro vezes por dia. Por sua caridade, mansidão e santidade, confirmou o povo na fé de seus antepassados.

Viajou em seguida a Roma para assistir ao primeiro Capítulo Geral de sua Ordem. Lá recebeu do Papa a missão de acompanhar o Núncio Apostólico à Polônia, onde os miasmas do protestantismo faziam perigar a verdadeira fé, aí participando da Dieta de Piotrkow. Fortalecido por ele, o fraco Rei Sigismundo declarou solenemente que não admitiria que se tocasse em nada nos direitos da Igreja.

Entretanto, foram retomadas as sessões do interrompido Concílio de Trento. E tanto o Papa Pio IV quanto o Imperador e os legados apostólicos julgaram imprescindível a presença de Pedro Canísio. Na magna assembléia, foi ele encarregado de presidir uma comissão que iria rever o Index, ou catálogo dos livros condenados. Como sempre, o santo brilhou por sua sábia atuação.

Concluído o Concílio em 1563, surgiu o problema de fazer os príncipes alemães aceitarem suas decisões. A escolha papal recaiu novamente em Pedro Canísio. Nomeado Núncio Apostólico, foi enviado à Alemanha. Após o êxito de sua empresa, o novo Papa São Pio V ordenou-lhe que participasse da Dieta de Augsburgo, realizada em 24 de março de 1566.

Os protestantes de Magdeburgo escreveram um odioso panfleto, repleto de injúrias à Igreja e aos católicos, denominado Centúrias de Magdeburgo. O Papa ordenou ao Pe. Canísio de refutá-lo. Escreveu então as Alterações da palavra divina, obra-prima de controvérsia e apologia da Religião católica.

A Suíça encontrava-se em perigo. A pedido do Papa, Pedro Canísio dirigiu-se àquela nação, tornando-se o segundo apóstolo do país e padroeiro de Friburgo.

Não é possível, nos limites de um breve artigo, seguir toda a gloriosa trajetória desse zeloso filho de Santo Inácio.

Já em vida foi cognominado Martelo dos hereges, pela constância com que os refutava e devido à força dos seus argumentos

Faleceu de uma hidropisia longa e dolorosa, em 20 de dezembro de 1597. Pela importância de seus escritos, foi declarado Doutor da Igreja.(3)

_______

Notas:
Les Petits Bollandistes, Vies des Saints d’après le Père Giry, Bloud et Barral, 1882, tomo XIV, p. 402.
Id., p. 403.
Também utilizamos como fonte de referência deste artigo a obra de Otto Braunsberger, in The Catholic Encyclopedia, Volume XI, online edition.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A realeza de Maria - Ad caeli reginam

CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII

AD CAELI REGINAM
SOBRE A REALEZA DE MARIA
E A INSTITUIÇÃO DA SUA FESTA

Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos e bispos e outros Ordinários do lugar,
em paz e comunhão com a Sé Apostólica.

INTRODUÇÃO

1. Desde os primeiros séculos da Igreja católica, elevou o povo cristão orações e cânticos de louvor e de devoção à Rainha do céu tanto nos momentos de alegria, como sobretudo quando se via ameaçado por graves perigos; e nunca foi frustrada a esperança posta na Mãe do Rei divino, Jesus Cristo, nem se enfraqueceu a fé, que nos ensina reinar com materno coração no universo inteiro a Virgem Maria, Mãe de Deus, assim como está coroada de glória na bem-aventurança celeste.

2. Ora, depois das grandes calamidades que, mesmo à nossa vista, destruíram horrivelmente florescentes cidades, vilas e aldeias; diante do doloroso espetáculo de tantos e tão grandes males morais, que transbordam em temeroso aluvião; quando vacila às vezes a justiça e triunfa com freqüência a corrupção; neste incerto e temeroso estado de coisas, sentimos nós a maior dor; mas ao mesmo tempo recorremos confiantes à nossa rainha, Maria santíssima, e patenteamos-lhe não só os nossos devotos sentimentos mas também os de todos os fiéis cristãos.

3. É grato e útil recordar que nós próprios - no dia 1° de novembro do ano santo de 1950, diante de grande multidão formada de cardeais, bispos, sacerdotes e simples cristãos, vindos de toda a parte do mundo - definimos o dogma da assunção da bem-aventurada virgem Maria ao céu(1), a qual presente em alma e corpo, reina entre os coros dos anjos e santos, juntamente com o seu unigênito Filho. Além disso - ocorrendo o primeiro centenário da definição dogmática do nosso predecessor de imortal memória Pio IX, que proclamou ter sido a Mãe de Deus concebida sem qualquer mancha do pecado original - promulgamos,(2) com grande alegria do nosso coração paterno, o presente ano mariano; e vemos com satisfação que não só nesta augusta cidade - especialmente na Basílica Liberiana, onde inumeráveis multidões vão testemunhando bem claramente a sua fé e ardente amor a Mãe do céu - mas em todas as partes do mundo a devoção à virgem Mãe de Deus refloresce cada vez mais, ocorrendo grandes peregrinações aos principais santuários de Maria.

4. Todos sabem que nós, na medida do possível - quando em audiências falamos aos nossos filhos, ou quando, por meio das ondas radiofônicas, dirigimos mensagens ao longe - não deixamos de recomendar, a quantos nos ouviam que amassem, com amor terno e filial, tão boa e poderosa Mãe. A esse propósito, recordamos em especial a radiomensagem que endereçamos ao povo português, por motivo da coroação da prodigiosa imagem de nossa Senhora de Fátima (3), que chamamos radiomensagem da "realeza" de Maria.(4)

5. Portanto, como coroamento de tantos testemunhos deste nosso amor filial, a que o povo cristão correspondeu com tanto ardor, para encerrar com alegria e fruto o ano mariano que se aproxima do fim, e para satisfazer aos insistentes pedidos, que nos chegaram de toda a parte, resolvemos instituir a festa litúrgica da bem-aventurada rainha virgem Maria.

6. Não é verdade nova que propomos à crença do povo cristão, porque o fundamento e as razões da dignidade régia de Maria encontram-se bem expressos em todas as idades, e constam dos documentos antigos da Igreja e dos livros da sagrada liturgia.

7. Queremos recordá-los na presente encíclica, para renovar os louvores da nossa Mãe do céu e avivar proveitosamente na alma de todos a devoção para com ela.

A REALEZA DE MARIA NOS TEXTOS DA TRADIÇÃO

8. Com razão acreditou sempre o povo fiel, já nos séculos passados, que a mulher, de quem nasceu o Filho do Altíssimo - o qual "reinará eternamente na casa de Jacó"(5), (será) "Príncipe da Paz"(6) , "Rei dos Reis e Senhor dos senhores"(7)-, recebeu mais que todas as outras criaturas singulares privilégios de graça. E considerando que há estreita relação entre uma mãe e o seu filho, sem dificuldade reconheceu na Mãe de Deus a dignidade real sobre todas as coisas.

9. Assim, baseando-se nas palavras do arcanjo Gabriel, que predisse o reino eterno do Filho de Maria,(8) e nas de Isabel, que se inclinou diante dela e a saudou como "Mãe do meu Senhor",(9) compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a Maria "mãe do Rei" e "Mãe do Senhor", dando claramente a entender que da realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência.

10. Santo Efrém, com grande inspiração poética, põe estas palavras na boca de Maria: "Erga-me o firmamento nos seus braços, porque eu estou mais honrada do que ele. O céu não foi tua mãe, e fizeste dele teu trono. Ora, quanto mais se deve honrar e venerar a mãe do Rei, do que o seu trono!"(10) Em outro passo, assim invoca a Maria santíssima: "...Virgem augusta e protetora, rainha e senhora, protege-me à tua sombra, guarda-me, para que Satanás, que semeia ruínas, não me ataque, nem triunfe de mim o iníquo adversário".(11)

11. A Maria chama s. Gregório Nazianzeno "Mãe do Rei de todo o universo", "Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo".(12) Prudêncio diz que a Mãe se maravilha "de ter gerado a Deus não só como homem mas também como sumo rei".(13)

12. E afirmam claramente a dignidade real de Maria aqueles que a chamam "senhora", "dominadora" e "rainha".

13. Já numa homilia atribuída a Orígenes, Maria é chamada por Isabel não só "Mãe do meu Senhor" mas também "Tu, minha Senhora".(14)

14. O mesmo conceito se pode deduzir dum texto de s. Jerônimo, que expõe o próprio parecer acerca das várias interpretações do nome de Maria: "Saiba-se que Maria, na língua siríaca, significa Senhora".(15) Igualmente e com mais decisão, se exprime depois s. Pedro Crisólogo: "O nome hebraico Maria traduz-se por "Domina" em latim: "portanto o anjo chama-lhe Senhora para livrar do temor de escrava a mãe do Dominador, a qual nasce e se chama Senhora pelo poder do Filho".(16)

15. Santo Epifânio, bispo de Constantinopla, escreve ao papa Hormisdas pedindo a conservação da unidade da Igreja "mediante a graça da Trindade una e santa e por intercessão de nossa Senhora, a santa e gloriosa virgem Maria, Mãe de Deus".(17)

16. Um autor do mesmo tempo dirige-se a Maria santíssima, sentada à direita de Deus, invocando-a solenemente como "Senhora dos mortais, santíssima Mãe de Deus".(18)

17. Santo André Cretense atribui muitas vezes a dignidade real à virgem Maria; escreve, por exemplo: "Leva [Jesus Cristo] neste dia da morada terrestre [para o céu], como rainha do gênero humano, a sua Mãe sempre virgem, em cujo seio, permanecendo Deus, tomou a carne humana".(19) E noutro lugar: "Rainha de todo o gênero humano, porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo quanto não é Deus".(20)

18. Do mesmo modo se dirige s. Germano à humildade da Virgem: "Senta-te, ó Senhora; sendo tu Rainha e mais eminente que todos os reis, pertence-te estar sentada no lugar mais nobre"(21); e chama-lhe: "Senhora de todos aqueles que habitam a terra".(22)

19. São João Damasceno proclama-a "rainha, protetora e senhora"(23) e também: "senhora de todas as criaturas"(24); e um antigo escritor da Igreja ocidental chama-lhe: "ditosa rainha", "rainha eterna junto do Filho Rei", e diz que ela tem a "nívea cabeça ornada com um diadema de ouro".(25)

20. Finalmente, s. Ildefonso de Toledo resume-lhe quase todos os títulos de honra nesta saudação: "Ó minha senhora, minha dominadora: tu dominas em mim, ó mãe do meu Senhor... Senhora entre as escravas, rainha entre as irmãs".(26)

21. Recolhendo a lição desses e outros inumeráveis testemunhos antigos, chamaram os teólogos a santíssima Virgem, rainha de todas as coisas criadas, rainha do mundo e senhora do universo.

22. Por sua vez, os sumos pastores da Igreja julgavam obrigação sua aprovar e promover a devoção à celeste Mãe e Rainha com exortação e louvores. Pondo de parte os documentos dos papas recentes, recordamos que já no século VII o nosso predecessor s. Martinho I chamou a Maria "gloriosa Senhora nossa, sempre virgem";(27) s. Agatão, na carta sinodal enviada aos padres do sexto concílio ecumênico, chamou-a "Senhora nossa, verdadeiramente e com propriedade Mãe de Deus";(28) e no século VIII, Gregório II, em carta ao patriarca s. Germano, que foi lida entre as aclamações dos padres do sétimo concílio ecumênico, proclamava Maria "Senhora de todos e verdadeira Mãe de Deus" e "Senhora de todos os cristãos".(29)

23. Apraz-nos recordar também que o nosso predecessor de imortal memória Sixto IV, querendo favorecer a doutrina da imaculada conceição da santíssima Virgem, começa a carta apostólica Cum praeexcelsa (30) chamando precisamente a Maria "rainha sempre vigilante, a interceder junto ao Rei, que ela gerou". Do mesmo modo Bento XIV, na carta apostólica Gloriosae Dominae (31), chama a Maria "rainha do céu e da terra", afirmando que o sumo Rei lhe contou, em certo modo, o seu próprio império. 

24. Por isso, s. Afonso de Ligório, tendo presente todos os testemunhos dos séculos precedentes, pôde escrever com a maior devoção: "Porque a virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos reis, com justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha".(32)

NA LITURGIA E NA ARTE

25. A sagrada liturgia, espelho fel da doutrina transmitida pelos santos padres e da crença do povo cristão, cantou por todo o decurso dos séculos e canta ainda sem cessar, tanto no oriente como no ocidente, as glórias da celestial Rainha.

26. Vozes entusiásticas ressoam do oriente: "Ó Mãe de Deus, hoje és transferida para o céu sobre os carros dos querubins, os serafins estão às tuas ordens, e os exércitos da milícia celeste prostram-se diante de ti".(33)

27. E mais ainda: "Ó justo, felicíssimo [José], pela tua origem real foste escolhido entre todos para esposo da Rainha imaculada, que dará à luz de modo inefável a Jesus Rei".(34) E depois: "Vou elevar um hino à rainha e Mãe de quem, ao celebrar, me aproximarei com alegria, para cantar com exultação alegremente as suas glórias... Ó Senhora, nossa língua não te pode louvar dignamente, porque tu, que deste à luz a Cristo nosso Rei, foste exaltada acima dos serafins... Salve, rainha do mundo, salve, ó Maria, senhora de todos nós".(35)

28. Lê-se no Missal etíope: "Ó Maria, centro do mundo todo,... Tu és maior que os querubins de olhar penetrante, e que os serafins de seis asas... O céu e a terra estão cheios da santidade da tua glória".(36)

29. O mesmo canta a liturgia da Igreja latina com a antiga e dulcíssima oração "Salve, rainha", as alegres antífonas "Ave, ó rainha dos céus", "Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia", e outras que se costumam rezar em várias festas de nossa Senhora: "Colocou-se como rainha à tua direita, com vestido dourado e circundada de vários ornamentos"(37); "A terra e o povo cantam o teu poder, ó rainha"(38); "Hoje a virgem Maria sobe ao céu: alegrai-vos, porque reina com Cristo para sempre".(39)

30. A esse e outros cânticos devem juntar-se as Ladainhas lauretanas, que levam o povo cristão a invocar todos os dias nossa Senhora como rainha; e no santo rosário, que se pode chamar coroa mística da celeste rainha, já há muitos séculos os fiéis contemplam, do quinto mistério glorioso, o reino de Maria, que abraça o céu e a terra. 

31. Finalmente a arte cristã, intérprete natural da espontânea e pura devoção do povo, desde o concílio de Éfeso que representa Maria como rainha e imperatriz, sentada num trono e adornada com as insígnias reais, de coroa na cabeça, rodeada da corte dos anjos e santos, como quem domina não só as forças da natureza, mas também os malignos assaltos de Satanás. A iconografia da virgem Maria como rainha enriqueceu-se em todos os séculos com obras de arte de alto mérito, chegando até a figurar o divino Redentor no ato de cingir com brilhante coroa a cabeça da própria Mãe.

32. Os pontífices romanos não deixaram de favorecer esta devoção coroando pessoalmente ou por meio de legados as imagens da virgem Mãe de Deus, que eram objeto de especial veneração.⁠⁠

OS ARGUMENTOS TEOLÓGICOS

33. Como acima apontamos, veneráveis irmãos, segundo a tradição e a sagrada liturgia, o principal argumento em que se funda a dignidade régia de Maria é sem dúvida a maternidade divina. Na verdade, do Filho que será dado à luz pela Virgem, afirma-se na Sagrada Escritura: "chamar-se-á Filho do Altíssimo e o Senhor Deus dar-lhe-á o trono de Davi, seu pai; reinará na casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim"(40); ao mesmo tempo que Maria é proclamada "a Mãe do Senhor".(41) Daqui se segue logicamente que Maria é rainha, por ter dado a vida a um Filho, que no próprio instante da sua concepção, mesmo como homem, era rei e senhor de todas as coisas, pela união hipostática da natureza humana com o Verbo. Por isso muito bem escreveu s. João Damasceno: "Tornou-se verdadeiramente senhora de toda a criação, no momento em que se tornou Mãe do Criador".(42) E assim o arcanjo Gabriel pode ser chamado o primeiro arauto da dignidade real de Maria.

34. Contudo, nossa Senhora deve proclamar-se Rainha, não só pela sua maternidade divina, mas ainda pela parte singular que Deus queria ter na obra da salvação. "Que pode haver - escrevia nosso predecessor de feliz memória, Pio XI - mais doce e suave do que pensar que Cristo é nosso Rei, não só por direito de natureza, mas ainda por direito adquirido, isto é, pela redenção? Repensem todos os homens, esquecidos do quanto custamos ao nosso Redentor e recordem todos: 'Não fostes remidos com ouro ou prata, bens corruptíveis..., mas pelo precioso sangue de Cristo, cordeiro imaculado e incontaminado'.(43) 'Não pertencemos portanto a nós mesmos, pois Cristo 'a alto preço',(44) 'nos comprou'.(45)

Sua cooperação na redenção

35. Ora, ao realizar-se a obra da redenção, Maria santíssima foi intimamente associada a Cristo, e por isso justamente se canta na sagrada liturgia: "Santa Maria, rainha do céu e senhora do mundo, estava traspassada de dor, ao pé da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo".(46) E um piedosíssimo discípulo de s. Anselmo podia escrever na Idade Média: "Como... Deus, criando todas as coisas pelo seu poder, é Pai e Senhor de tudo, assim Maria, reparando todas as coisas com os seus méritos, é mãe e senhora de tudo: Deus é senhor de todas as coisas, constituindo cada uma delas na sua própria natureza pela voz do seu poder, e Maria é Senhora de todas as coisas, reconstituindo-as na sua dignidade primitiva pela graça, que lhes mereceu".(47) De fato "como Cristo, pelo título particular da redenção, é nosso senhor e nosso rei, assim a bem-aventurada Virgem [é senhora nossa] pelo singular concurso, prestado à nossa redenção, subministrando a sua substância e oferecendo voluntariamente por nós o Filho Jesus, desejando, pedindo e procurando de modo singular a nossa salvação".(48)

36. Dessas premissas se pode argumentar: Se Maria, na obra da salvação espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio de salvação, e o foi quase como Eva foi associada a Adão, princípio de morte, podendo-se afirmar que a nossa redenção se realizou segundo uma certa "recapitulação",(49) pela qual o gênero humano, sujeito à morte por causa duma virgem, salva-se também por meio duma virgem; se, além disso, pode-se dizer igualmente que esta gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo "para lhe ser associada na redenção do gênero humano",(50) e se realmente "foi ela que - isenta de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitamente unida a seu Filho - o ofereceu no Gólgota ao eterno Pai, sacrificando juntamente, qual nova Eva, os direitos e o amor de mãe em benefício de toda a posteridade de Adão, manchada pela sua desventurada queda"(51) poder-se-á legitimamente concluir que, assim como Cristo, o novo Adão, deve-se chamar rei não só porque é Filho de Deus mas também porque é nosso redentor, assim, segundo certa analogia, pode-se afirmar também que a bem-aventurada virgem Maria é rainha, não só porque é Mãe de Deus mas ainda porque, como nova Eva, foi associada ao novo Adão.

Sua sublime dignidade

37. E certo que no sentido pleno, próprio e absoluto, somente Jesus Cristo, Deus e homem, é rei; mas também Maria - de maneira limitada e analógica, como Mãe de Cristo-Deus e como associada à obra do divino Redentor, à sua luta contra os inimigos e ao triunfo deles obtido participa da dignidade real. De fato, dessa união com Cristo-Rei deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas as coisas criadas: dessa mesma união com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino; finalmente, da mesma união com Cristo se origina a inexaurível eficácia da sua intercessão junto do Filho e do Pai.

38. Portanto, não há dúvida alguma que Maria santíssima se avantaja em dignidade a todas as coisas criadas e tem sobre todas o primado, a seguir ao seu Filho. "Tu finalmente, canta s. Sofrônio, superaste em muito todas as criaturas... Que poderá existir mais sublime que tal alegria, ó Virgem Mãe? Que pode existir mais elevado que tal graça, a qual por divina vontade só tu tiveste em sorte?"(52) "A esses louvores acrescenta s. Germano: "A tua honra e dignidade colocam-te acima de toda a criação: a tua sublimidade faz-te superior aos anjos".(53) João Damasceno chega a escrever o seguinte: "É infinita a diferença entre os servos de Deus e a sua Mãe".(54)

39. Para melhor compreendermos a sublime dignidade, que a Mãe de Deus atingiu acima de todas as criaturas, podemos considerar que a santíssima Virgem, desde o primeiro instante da sua conceição, foi enriquecida de tal abundância de graças, que supera a graça de todos os santos. Por isso, como escreveu na carta apostólica Ineffabilis Deus o nosso predecessor, de feliz memória, Pio IX, Deus "fez a maravilha de a enriquecer, acima de todos os anjos e santos, de tal abundância de todas as graças celestiais hauridas dos tesouros da divindade, que ela - imune de toda a mancha do pecado, e toda bela apresenta tal plenitude de inocência e santidade, que não se pode conceber maior abaixo de Deus, nem ninguém a pode compreender plenamente senão Deus".(55)

Com Cristo, ela reina nas mentes e vontades dos homens 

40. Nem a bem-aventurada virgem Maria teve apenas, ao seguir a Cristo, o supremo grau de excelência e perfeição, mas também participou ainda daquela eficácia pela qual justamente se afirma que o seu divino Filho e nosso Redentor reina na mente e na vontade dos homens. Se, de fato, o Verbo de Deus opera milagres e infunde a graça por meio da humanidade que assumiu - e se utiliza dos sacramentos e dos seus santos, como instrumentos, para salvar as almas; por que não há de servir-se do múnus e ação de sua Mãe santíssima para nos distribuir os frutos da redenção? "Com ânimo verdadeiramente materno para conosco - como diz o mesmo predecessor nosso, de feliz memória, Pio IX - e ocupando-se da nossa salvação, ela, que pelo Senhor foi constituída rainha do céu e da terra, toma cuidado de todo o gênero humano, e - tendo sido exaltada sobre todos os coros dos anjos e as hierarquias dos santos do céu, e estando à direita do seu unigênito Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor - com as suas súplicas maternas impetra com eficácia, obtém quanto pede, nem pode deixar de ser ouvida".(56) A esse propósito, outro nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, declarou que foi concedido à bem-aventurada virgem Maria um poder "quase ilimitado"(57) na distribuição das graças; s. Pio X acrescenta que Maria desempenha esta missão "como por direito materno".(58)

Duplo erro a ser evitado

41. Gloriem-se, portanto, todos os féis cristãos de estar submetidos ao império da virgem Mãe de Deus, que tem poder régio e se abrasa de amor materno.

42. Porém, nessas e noutras questões que dizem respeito à bem-aventurada virgem Maria, procurem os teólogos e pregadores evitar certos desvios, para não caírem em duplo erro: acautelem-se de opiniões sem fundamento e que ultrapassam com exageros os limites da verdade; e evitem, por outro lado, a excessiva estreiteza ao considerarem a singular, sublime, e mesmo quase divina dignidade da Mãe de Deus, que o doutor angélico nos ensina a atribuir-lhe "em razão do bem infinito, que é Deus".(59)

43. Mas, nesse, como em todos os outros capítulos da doutrina cristã, "a norma próxima e universal" é para todos o magistério vivo da Igreja, instituído por Cristo "também para esclarecer e explicar aquelas coisas que só de modo obscuro e como que implícito estão contidas no depósito da fé".(6)

A FESTA DE MARIA RAINHA

44. Dos testemunhos da antiguidade cristã, das orações da liturgia, da inata devoção do povo cristão, das obras artísticas, de toda a parte recolhemos expressões que nos mostram que a virgem Mãe de Deus se distingue pela sua dignidade real; mostramos também que as razões, deduzidas pela sagrada teologia do tesouro da fé divina, confirmam plenamente essa verdade. De tantos testemunhos referidos forma-se uma espécie de concerto harmonioso que exalta a incomparável dignidade real da Mãe de Deus e dos homens, a qual domina todas as coisas criadas e foi elevada aos reinos celestes, acima dos coros dos anjos".(61)

45. Depois de atentas e ponderadas reflexões, tendo chegado à convicção de que seriam grandes as vantagens para a Igreja, se essa verdade solidamente demonstrada resplandecesse com maior evidência diante de todos como luz que brilha mais, quando posta no candelabro, - com a nossa autoridade apostólica decretamos e instituímos a festa de Maria rainha, para ser celebrada cada ano em todo o mundo no dia 31 de maio. Ordenamos igualmente que no mesmo dia se renove a consagração do gênero humano ao seu coração imaculado. Tudo isso nos incute grande esperança de que há de surgir nova era, iluminada pela paz cristã e pelo triunfo da religião.

Exortação à devoção mariana

46. Procurem pois todos, e agora com mais confiança, aproximar-se do trono da misericórdia e da graça, para pedir à nossa Rainha e Mãe socorro na adversidade, luz nas trevas, conforto na dor e no pranto; e, o que é mais, esforcem-se por se libertar da escravidão do pecado, e prestem ao cetro régio de tão poderosa Mãe a homenagem duradoura da devoção dial. Freqüentem as multidões de fiéis os seus templos e celebrem-lhe as festas; ande nas mãos de todos a piedosa coroa do terço; e reúna a recitação dele - nas igrejas, nas casas, nos hospitais e nas prisões - ora pequenos grupos, ora grandes assembléias, para cantarem as glórias de Maria. Honra-se o mais possível o seu nome, mais doce do que o néctar e mais valioso que toda a pedra preciosa; ninguém ouse o que seria prova de alma vil - pronunciar ímpias blasfêmias contra este nome santíssimo, ornado de tanta majestade e venerável pelo carinho próprio de mãe; nem se atreva ninguém a dizer nada que seja irreverente.

47. Com vivo e diligente cuidado todos se esforcem por copiar nos sentimentos e nos atos, segundo a própria condição, as altas virtudes da Rainha do céu e nossa Mãe amantíssima. Donde resultará que os féis, venerando e imitando tão grande Rainha e Mãe, virão se sentir verdadeiros irmãos entre si, desprezarão a inveja e a cobiça das riquezas, e hão de promover a caridade social, respeitar os direitos dos fracos e fomentar a paz. Nem presuma alguém ser filho de Maria, digno de se acolher à sua poderosíssima proteção, se à exemplo dela não é justo, manso e casto, e não mostra verdadeira fraternidade, evitando ferir e prejudicar, e procurando socorrer e dar ânimo.

A Igreja do silêncio

48. Em algumas regiões da terra, não falta quem seja injustamente perseguido por causa do nome cristão e se veja privado dos direitos divinos e humanos da liberdade. Para afastar tais males, nada conseguiram até hoje justificados pedidos e reiterados protestos. A esses filhos inocentes e atormentados volva os seus olhos de misericórdia, cuja luz dissipa nuvens e serena tempestades, a poderosa Senhora dos acontecimentos e dos tempos, que sabe vencer a maldade com o seu pé virginal. Conceda-lhes poderem em breve gozar a devida liberdade e cumprir publicamente os deveres religiosos. E, servindo a causa do Evangelho - com o seu esforço concorde e egrégias virtudes, de que no meio de tantas dificuldades dão exemplo - concorram para o fortalecimento e progresso das sociedades terrestres.

Maria, Rainha e Medianeira da paz

49. A festa - instituída pela presente carta encíclica, a fim de que todos reconheçam mais claramente e melhor honrem o clemente e materno império da Mãe de Deus pensamos que poderá contribuir para que se conserve, consolide e torne perene a paz dos povos, ameaçada quase todos os dias por acontecimentos que enchem de ansiedade. Não é ela acaso o arco-íris que se eleva para Deus, como sinal de pacífica aliança?(62) "Contempla o arco-íris e bendize aquele que o fez; é muito belo no seu esplendor; abraça o céu na sua órbita radiosa, e foram as mãos do Altíssimo que o traçaram".(63) Todo aquele que honra a Senhora dos anjos e dos homens - e ninguém se julgue isento deste tributo de reconhecimento e amor - invoque esta rainha, medianeira da paz; respeite e defenda a paz, que não é maldade impune nem liberdade desenfreada, mas concórdia bem ordenada sob o signo e comando da divina vontade: tendem a protegê-la e aumentá-la as maternas exortações e ordens de Maria.

50. Desejando ardentemente que a Rainha e Mãe do povo cristão acolha estes nossos votos, alegre com a sua paz as terras sacudidas pelo ódio, e a todos nós, depois deste exílio, mostre a Jesus, que será na eternidade a nossa paz e alegria; a vós, veneráveis irmãos, e aos vossos rebanhos, concedemos de todo o coração a bênção apostólica, como penhor do auxílio de Deus onipotente e testemunho do nosso paternal afeto.

Dado em Roma, junto de São Pedro, na festa da maternidade de Nossa Senhora, no dia 11 de outubro do ano de 1954, XVI do nosso pontificado.

PIO PP. XI
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

A Tradição é linda.

A Tradição é linda.

Palavras de Santo Agostinho

"A oração é uma chave do céu; sobem as preces, desce a divina misericórdia. Por mais baixa que seja a Terra, e alto o Céu, Deus ouve a língua do homem, quando este tem limpa a consciência."