segunda-feira, 20 de março de 2017

Padre Reus - padres santos

Salve Maria!
Que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos.

Hoje senti inspiração para falar sobre sacerdotes santos, canonizados ou não. Vou iniciar uma série de posts, em ordem aleatória mesmo, para falar sobre esses seres que são instrumentos de Deus para nos santificar e nos levar para mais perto do Sumo Bem.

De repente me vi pesquisando sobre devocionários para comprar (e aumentar a minha pequena e em estágio embrionário coleção). Lembrei do devocionário escrito muito devotamente pelo santo Padre João Batista Reus, alemão que veio fazer missão no Brasil. Graças a Deus!

Copiei uma pequena biografia do padre, mas é claro que sua vida foi muita mais rica do que o que contém nesse texto. 

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Padre João Batista Reus, com seu hábito jesuíta

Padre João Batista Reus nasceu em 10 de julho de 1868, em Pottenstein, na Alemanha. Seus pais, João e Ana Margarida Reus, lhe deram primorosa educação religiosa. No dia 30 de julho de 1893 foi ordenado sacerdote na Catedral de Bamberg, celebrando a primeira missa na festa de Santo Inácio.

Ingresso na Companhia de Jesus

Ingressou na Companhia de Jesus em 16 de outubro de 1894, na cidade de Blijenbeek, na Holanda. Pe. Reus realizou a Terceira Provação em Wijnandsrade, na Holanda, de setembro de 1899 a julho de 1900. Ao término de sua formação, foi destinado para a Missão Brasileira.

Já no Brasil, foi pároco nas cidades de Rio Grande, Porto Alegre e São Leopoldo, onde era conhecido por sua piedade e devoção. Por muitos anos, foi professor de teologia e orientador espiritual no Colégio Cristo Rei, em São Leopoldo.

Durante sua vida, escreveu diversos livros religiosos em português, espanhol, alemão e italiano. Seu Diário Espiritual e Autobiografia revelam uma alma singular e mística. Somente depois de 50 anos de sacerdócio, e a muito custo, aceitou celebrar missa para toda a comunidade, pois, até então, a celebrava apenas em capela reservada.

Falecimento e beatificação

Por conta dos milagres que lhe são conferidos, ao falecer, em 21 de julho de 1947, já contava com fama de santidade.
O processo de beatificação de Pe. Reus teve início em 1958 e ainda continua em tramitação.

O túmulo de Pe. Reus, junto ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus, é um dos principais pontos turísticos de São Leopoldo.
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Fonte:http://www.asav.org.br/sobre-padre-reus/

sábado, 4 de março de 2017

São Casimiro, Rei

São Casimiro por Carlo Dolci

Vivendo numa sociedade já voltada para os prazeres desenfreados, soube visar a glória de Deus, antes de tudo, permanecendo íntegro de corpo e alma, firme na Fé e zeloso pelo bem de seus súditos.

Em sua sabedoria divina, a Santa Igreja sempre tem palavras adequadas para elevar o coração e a mente dos fiéis em todas as suas comemorações ou festas. E ao recorrer à intercessão de São Casimiro, no dia de sua memória – 4 de março -, ela começa por pedir: “Ó Deus todo-poderoso, a quem servir é reinar…”. 1

De fato, quem deposita a confiança em Deus e entrega toda a sua existência ao serviço d’Ele, quer abraçando o estado religioso quer o estado leigo, como São Casimiro, recebe o cêntuplo ainda nesta Terra, e mais ainda no Céu. A este jovem não faltaram grandes qualidades, tampouco territórios para governar, e ele soube eleger para sua vida um caminho que lhe legasse o Reino eterno. Sem dar largas à cobiça, tão comum aos monarcas de sua época, manteve-se íntegro na fidelidade ao seu nobre ideal: ser um príncipe santo.

Nascido no esplendor de uma corte

Casimiro nasceu a 3 de outubro de 1458, no castelo de Wawel, em Cracóvia. Seu pai, Casimiro IV, era rei da Polônia e grão-duque da Lituânia, cabendo-lhe governar como tal um extenso território que se estendia pelo leste quase até Moscou e pelo sul até o Mar Negro. Sua mãe era a arquiduquesa Isabel, filha de Alberto II de Habsburgo, rei dos romanos e soberano da Áustria, Hungria e Boêmia.

Nosso Santo foi o terceiro de 13 filhos, e diz-se que sua progenitora “já no berço ninava para eles os tronos europeus”. 2 Tanto ele quanto seus irmãos receberam excelente formação, pois, como Isabel via em cada filho um futuro monarca, e em cada filha uma rainha, não poupou esforços na instrução das crianças. Embora sendo piedosa, educava- os tendo em vista a corte e a vida diplomática, e não a santidade, julgando de forma errada – como muitos fazem, infelizmente, também hoje – que a procura da perfeição está reservada apenas àqueles que se retiram do mundo para levar uma vida religiosa. Casimiro, pelo contrário, desde tenra idade entendeu que devia ser santo, sem deixar de ser príncipe e isso significava “ser fiel aos desígnios de Deus, mesmo ‘cercado de luxo da corte real e das atrações mundanas'”,3 como diz a oração da Missa de sua festa, na Lituânia.

A corte de Cracóvia era tão luxuosa e requintada como as demais daquela quadra histórica. À mesa serviam-se ricas iguarias e os banquetes prolongavam-se por longas horas. Compenetrado dos deveres inerentes à sua condição de príncipe, São Casimiro não se recusava a participar da vida social. Mostrava-se amável e alegre nas festas, mas delas se retirava tão logo podia. Não desprezava as finas vestimentas principescas, contudo, por espírito de pobreza, usava uma túnica interior de tecido comum. Sabia-se que seus ricos trajes ocultavam um cilício e que ele fazia muitas outras mortificações. Sempre discreto nessas práticas religiosas e penitências, chegou a ser chamado de “a encarnação de silenciosa devoção”.4

Adolescente puro, paciente e magnânimo

S. Casimiro por Daniel Schultz
Dentro da vida palaciana era notável sua extrema generosidade para com os pobres, viúvas, peregrinos, prisioneiros ou anciãos, pois, não se contentando em dar do que era seu, doava até seu próprio tempo em benefício alheio.

Se era magnânimo nas obras de caridade corporais, muito mais o era nas espirituais, admoestando com sabedoria, bondade e paciência os que o circundavam – até mesmo seu pai -, sempre que via algo contundir a verdade ou estar privado da maior perfeição possível. Sabia também perdoar as ofensas que lhe eram feitas, rezar por seus mais próximos e por seus súditos, os quais desejava ver no caminho do bem e ardorosos na Fé.

Seus biógrafos destacam sua exímia pureza, a qual reluzia a ponto de um de seus mestres, Bonaccorsi, chamá-lo de “divus adolescens – jovem divinizado”.5 Praticar com perfeição esta virtude, no corpo e na alma, era a meta de sua vida. Por isso nunca entregou seu coração a qualquer afeto deste mundo e se manteve sempre vigilante para que nada lhe manchasse.

Amor pela oração e pela liturgia

De onde lhe vinham tantas virtudes? De Jesus Crucificado, de quem meditava amiúde a Paixão, e da Santíssima Virgem, a quem dedicava toda a sua vida.

Estando em Cracóvia ou em Vilnius, capital do grão-ducado da Lituânia, viam-no repetidas vezes percorrendo as estações da Via-Sacra, devoção surgida naqueles anos e que tocou profundamente a sua alma. Estas meditações o levavam a amar a cruz e o sacrifício, e a desejar dar a vida por Aquele que quis ser escarnecido e Se deixou crucificar por amor à humanidade. As cerimônias litúrgicas o entusiasmavam e nunca perdia o ensejo de assistir a uma Missa. Nessas ocasiões, ficavam patentes aos olhos dos circunstantes sua piedade e seu ardente amor ao Santíssimo Sacramento.

Quando no Paço Real ninguém sabia onde ele estava, o encontravam em alguma igreja, absorto em oração. Tanto na Polônia quanto na Lituânia, gostava de visitá-las e não titubeava em rezar junto às suas portas, caso as encontrasse fechadas.

Era comum vê-lo, nas mais diversas oportunidades, ajoelhado aos pés de Nossa Senhora, a rezar. Contam que recitava a cada dia o hino “Omni die dic Mariæ meæ laudes anima – Que a cada dia minha alma cante louvores a Maria”,6 divulgando-o entre seus súditos. Atraía-o, sobretudo, a esplêndida pureza da Mãe de Deus. Pedia a Ela o dom da sabedoria e a virtude da justiça para saber governar, bem como o espírito de vigilância, a fim de nunca sucumbir como Salomão (cf. I Rs 11, 1-6).

Dois anos como regente da Polônia

No ano de 1481, o rei Casimiro IV, seu pai, precisou transferir sua residência para a Lituânia, deixando- o como regente em Cracóvia.

Por dois anos governou São Casimiro a Polônia, durante os quais não deixou de atender a nenhum dos seus súditos, seja qual fosse a classe social à qual pertenciam. Tanto clérigos quanto nobres ou plebeus sentiam-se bem acolhidos em suas demandas e aplicou-se com tanto bom senso à administração, que conseguiu em pouco tempo estabilizar o tesouro real, cortando os gastos inúteis e afastando dele os aproveitadores. Com isso, livrou de hipotecas muitas propriedades reais.

Jovem de ânimo resoluto e temperante, fazia grandes esforços para manter entre seus vassalos a boa conduta nos negócios do Estado. Para ele a glória de Deus envolvia tudo: desde um simples cálculo algébrico às grandes decisões nas quais estavam em xeque os mais importantes interesses da nação. Apesar da constância e firmeza nos interesses do reino, não deixava de ouvir os que o rodeavam, como atesta uma de suas cartas, de 1º de fevereiro de 1481, destinada aos nobres dirigentes da cidade de Braslava: “Eu gostaria muito – não só porque é de justiça, que prezo muito e procuro respeitar – de deixá-los satisfeitos, o que de modo especial almejo”.7 E sendo a Polônia um país católico, São Casimiro, enquanto príncipe regente, não pôde deixar de procurar estreitar com afinco as relações com Roma, um tanto negligenciadas por seu pai.

Últimos meses de vida

Sarcófago de prata com o corpo de
S. Casimiro
O peso das responsabilidades e os intensos trabalhos desses anos à frente do governo polonês acabaram por extenuar o santo príncipe. Somavam-se a isso as contínuas mortificações que fazia, como tivemos a oportunidade de contemplar. Retirou-se com a família, então, para a Lituânia, na primavera de 1483, a fim de recobrar um pouco as energias.

Ali, como acontecera na Polônia, os anais de sua história registram um especial desvelo para com os mais necessitados, e eram os conventos e as igrejas, de modo especial, o objeto de sua prodigalidade. Não se sentia bem se não visse o Rei dos reis e Senhor dos senhores, Jesus Sacramentado, honrado e servido através de um digno templo e de ricos objetos litúrgicos.

Os últimos seis meses de sua vida, ele os passou entre Vilnius e Trakai, auxiliando o pai na chancelaria do Estado lituano e promovendo a Fé entre o povo. Estando, entretanto, com a saúde comprometida e o organismo extremamente debilitado, foi atacado por uma violenta tuberculose, que consumiu suas últimas forças. Tinha 25 anos de idade e havia guardado intacta sua pureza virginal, mas sua mãe ainda alimentava as esperanças de vê-lo casado com a filha do imperador Frederico III, sem compreender serem outros os desígnios divinos para este varão eleito.

“Mais admirável ainda no Céu”

No dia 4 de março de 1484, ele entregou a alma a Deus. Seu corpo foi sepultado no jazigo da família real, na catedral de Vilnius. E apesar da umidade do local, estava inteiro e incorrupto quando foi exumado, 120 anos depois, em 1604. Segundo o relato das testemunhas, dele exalava um agradável odor. Intactas estavam também suas vestes. Sobre seu peito repousava uma cópia do hino mariano que rezava diariamente: “Omni die dic Mariæ”. Belo símbolo de uma santa vida, na qual cada dia foi um hino de louvor à Mãe de Deus!Quem se entrega sem reservas a Deus neste vale de lágrimas, quando chega à glória da visão beatífica não abandona aqueles que na Terra ficaram privados de sua presença. Pelo contrário, muitas vezes realizam por estes mais do que puderam fazer durante a sua peregrinação terrena. Tal é o “ministério” próprio dos Santos. Conhecido como amável, caridoso e amigo dos pobres, para os lituanos e poloneses São Casimiro é, sobretudo, o protetor de sua Pátria.

Em momentos nos quais a Lituânia passou por difíceis períodos enquanto nação, o jovem e santo príncipe nunca deixou de prestar socorro a seus compatriotas. E a devoção a ele foi um poderoso instrumento nas mãos dos jesuítas, para preservar a Religião Católica no país diante da propaganda protestante. Atraídos por sua nobreza de caráter e pela força de sua fé, os filhos de Santo Inácio exortavam os lituanos a permanecerem fiéis aos ensinamentos da Igreja, tal como São Casimiro. A partir de então, igrejas foram construídas em sua honra, surgiram confrarias colocadas sob sua proteção, milhares de recém- nascidos receberam o seu nome, propagando-se a devoção ao Santo não só em terras lituânias e polonesas, mas, posteriormente, em todo o mundo. Até nos sinos dos campanários eram gravados louvores ao jovem príncipe, como para fazer ecoar as belezas de sua santidade. “Casimire, terris mire, coelis mirabilior – Casimiro, admirável na Terra, mais admirável ainda no Céu”,8 lê-se no sino da igreja de Kraziai.

O exemplo de sua vida marcou profundamente seus contemporâneos, e foi de Vilnius que partiu o pedido de sua canonização. Em 1521, Leão X o elevou às honras dos altares, tendo antes comprovado ter sido sua vida um contínuo testemunho da presença de Deus entre os homens. Urbano VIII a ele confiou a proteção da Lituânia; e a heroicidade de sua pureza e perseverança no bom caminho fez com que Pio XII, em 1948, o proclamasse “Patrono da juventude lituana, na pátria e no exterior”. A São Casimiro, que não chegou a ser coroado na Terra como rei, porque faleceu com pouca idade, foi dada a coroa da glória nos Céus.

Omni Die Dic Mariae


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1 MEMÓRIA DE SÃO CASIMIRO. Oração do Ofício das Leituras. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v.III, p.1285.
2 GAVENAS, Pranas. São Casimiro. O primeiro santo jovem leigo da era moderna. São Paulo: Salesiana D. Bosco, 1984, p.19.
3 Idem, p.28.
4 HÜMMELER, H. Helden und heilige, apud GAVENAS, op. cit., p.41
5 SANCHEZ ALISEDA, Casimiro. San Casimiro. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.III, p.73.
6 COMISSÃO DE ESTUDOS DE CANTO GREGORIANO DOS ARAUTOS DO EVANGELHO. Liber Cantualis. São Paulo: Salesiana, 2011, p.167.
7 GAVENAS, op. cit., p.35.
8 Idem, p.64.

Revista Arautos do Evangelho, Março/2014, n. 147, p. 30 à 33.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cathedra Petri

Cátedra de São Pedro

A Cátedra de Pedro ou Cadeira de São Pedro é uma relíquia, conservada na Basílica de São Pedro em Roma, dentro de um compartimento de bronze, dourado, projetado e construído por Gian Lorenzo Bernini entre 1647 e 1653, que possuí a forma de uma cadeira de espaldar alto. 

A cadeira de um bispo ou outra autoridade religiosa, especialmente se dentro de uma catedral, é chamada cátedra (cathedra do latim) e esta concretamente é a que está na Basílica de São Pedro e que tem sido utilizada pelos papas como trono para o seu exercício de autoridade máxima e ex cathedra - para falar de forma infalível. 

Do nome cátedra vem o nome Catedral, ou seja, a igreja que abriga a Cátedra do Bispo local. Há registros do ano de 370, do Papa São Damásio I, descrevendo uma cadeira portátil que era usada pelo Bispo de Roma nas dependências do Vaticano e mencionando várias celebrações festivas de anos anteriores que eram feitas em sua honra. 

A Sagrada Tradição sustenta que as relíquias da cadeira usada por São Pedro estão guardadas embaixo do assento de bronze dessa cadeira elevada, situada na Basílica de São Pedro, sustentada por 4 Doutores da Igreja que defenderam a primazia de São Pedro: Santo Ambrósio e Santo Atanásio, à esquerda, e São João Crisóstomo e Santo Agostinho, à direita.

Registros igualmente antigos dão conta de uma segunda cadeira usada por São Pedro, que foi escondida nas catacumbas de Priscila. Assim da primitiva existiriam apenas uns pequenos pedaços que seriam encrostados nesta nova cadeira, igualmente de madeira, que encontra-se lacrada no compartimento de bronze da autoria de Gian Lorenzo Bernini. 

Para o compreender é preciso pensar que, naqueles tempos, estava-se em plena contra-reforma, e que foram construídos diversos outros relicários com a intenção de proteger as respectivas relíquias. Podemos ver que, como em O Êxtase de Santa Teresa, este é uma fusão da arte Barroco, escultura e arquitetura ricamente policromada, manipulando efeitos de luz. Depois possui um painel com estofos padrão com um baixo-relevo de Cristo dando as chaves do céu a Pedro. Diversos anjos estão em torno do painel, e em baixo há um assento almofadado de bronze vazio: a relíquia da antiga cadeira está lá dentro.

Na Bíblia, em São Mateus 16, 18-19, Jesus fala para S. Pedro: "Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam et portae inferi non praevalebunt adversum eam. et tibi dabo claves regni cælorum et quodcumque ligaveris super terram erit ligatum in cælis et quodcumque solveris super terram erit solutum in cælis." ("Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus. E o que desligares na terra será desligado nos céus"), esta frase está inscrita na cúpula em cima do relicário, sendo ambos vistos como símbolos da autoridade do Papa. Este evento é conhecido como Confissão de Pedro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Santa Escolástica


Quando Nosso Senhor veio ao mundo, trouxe-nos um mandamento novo: “Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”(Jo 13,34). Este amor levado às últimas consequências propiciou-nos a Redenção. E um relacionamento humano regrado e bem conduzido deve seguir o exemplo do Divino Mestre. O verdadeiro amor ao próximo é aquele que se nutre por outrem por amor a Deus e que tem o Criador como centro, visando a santidade daqueles que se amam. Já ensinava Santo Agostinho que só existem dois amores: ou se ama a si mesmo até o esquecimento de Deus, ou se ama a Deus até o esquecimento de si mesmo.

Assim foi Santa Escolástica, alma inocente e cheia de amor a Deus, de quem pouco se conhece, mas que, abrindo-se à sua graça, adquiriu excepcional força de alma e logrou chegar à honra dos altares. Sua história está intimamente ligada à aquele que por desígnios da Providência nasceu com ela para a vida, o grande São Bento, seu irmão gêmeo e pai do monacato ocidental, a quem amou com todo o seu coração.

Nasceram Escolástica e Bento em Núrsia, na Úmbria, região da Itália situada ao pé dos montes Apeninos, no ano 480. Como seu irmão, teve ela uma educação primorosa. Com seus pais, muito católicos e tementes a Deus, constituíam uma das famílias mais distintas daquelas montanhas. Modelo de donzela cristã, Escolástica era piedosa, virtuosa, cultivava a oração e era inimiga do espírito do mundo e das vaidades.

Sempre caminhou em uníssono com seu irmão Bento, unidos já antes de nascer e irmãos gêmeos também de alma. Com a morte dos pais, Escolástica vivia mais recolhida no retiro de sua casa. Quando se inteirou que seu irmão deixara o deserto de Subiaco e fundara o célebre mosteiro de Monte Cassino, decidiu ela professar a mesma perfeição evangélica, distribuindo todos os seus haveres aos pobres e partindo com uma criada em busca do irmão.

Encontrando-o, explicou-lhe suas intenções de passar o resto da vida numa solidão como a dele e suplicou-lhe que fosse seu pai espiritual, prescrevendo-lhe as regras que deveria seguir para o aperfeiçoamento de sua alma. São Bento, já conhecendo a vocação da irmã, aceitou-a e mandou construir para ela e a criada uma cela não muito longe do mosteiro, dando-lhe basicamente a mesma regra de seus monges.

A fama de santidade desta nova eremita foi crescendo e, pouco a pouco, se juntaram a ela muitas outras jovens que se sentiam chamadas para a vida monástica, colocando-se todas sob a sua direção, juntamente com a de São Bento, formando assim uma nova Ordem feminina, mais tarde conhecida como das Beneditinas, que chegou a ter 14.000 conventos espalhados por todo o Ocidente.

A cada ano, alguns dias antes da Quaresma, encontravam-se Bento e Escolástica a meio caminho entre os dois conventos, numa casinha que ali havia para este fim. Passavam o dia em colóquios espirituais, para depois tornarem a ver-se no ano seguinte. Um dos capítulos do livro “Diálogos”, de São Gregório Magno, ajudou a salvar do esquecimento o nome desta grande santa que tem lugar de predileção entre as virgens consagradas. O grande Papa santo narra com simplicidade o último encontro de São Bento e Santa Escolástica, em que a inocência e o amor venceram a própria razão.

Era a primeira quinta-feira da Quaresma de 547. São Bento foi estar com sua irmã na casinha de costume. Passaram todo o dia falando de Deus. Ao entardecer, levantou-se São Bento decidido a regressar a seu mosteiro, para voltar apenas no próximo ano. Pressentindo que sua morte viria logo, Santa Escolástica pediu ao irmão que passassem ali a noite e não interrompessem tão abençoado convívio. Ao que o irmão respondeu:

– Que dizes? Não sabes que não posso passar a noite fora da clausura do convento?

Escolástica nada disse. Apenas abaixou a cabeça e, na inocência de seu coração, pediu a Deus que lhe concedesse a graça de estar um pouco mais com seu irmão e pai espiritual, a quem tanto amava. No mesmo instante o céu se toldou. Raios e trovões encheram o firmamento de luz e estrondos. A chuva começou a cair torrencialmente. Era impossível subir o Monte Cassino naquelas condições. Escolástica apenas perguntou a seu irmão?

– Então, não vais sair? São Bento, percebendo o que se havia passado, perguntou-lhe:

– Que fizeste, minha irmã? Deus te perdoe por isso…

– Eu te pedi e não quiseste me atender. Pedi a Deus e Ele me ouviu – respondeu a cândida virgem.

Passaram aquela noite em santo convívio, podendo o santo fundador regressar ao seu mosteiro apenas no outro dia pela manhã. De fato, confirmou-se o pressentimento de Escolástica. Entregou sua alma ao Criador três dias depois deste belo fato. São Bento viu, da janela de sua cela, a alma de Escolástica subir ao céu sob a forma de uma branca pomba, símbolo da inocência que ela sempre teve. Levou o corpo para seu mosteiro e aí o enterrou no túmulo que havia preparado para si próprio. Alguns meses mais tarde também faleceu São Bento. Ficaram assim unidos na morte aqueles dois irmãos que na vida terrena se haviam unido pela vocação.

Comentando este fato da vida dos dois grandes santos, São Gregório diz que o procedimento de Santa Escolástica foi correto, e Deus quis mostrar a força de alma de uma inocente, que colocou o amor a Ele acima até da própria razão ou regra. Segundo São João, “Deus é amor” (I Jo 4, 7) e não é de admirar que Santa Escolástica tenha sido mais poderosa que seu irmão, na força de sua oração cheia de amor. “Pôde mais quem amou mais”, ensina São Gregório. Aqui o amor venceu a razão, nesta singular contenda.

Peçamos a Santa Escolástica a graça da restauração de nossa inocência batismal, para que cresça o amor a Deus em nossa alma e possamos ter sua força espiritual para dizer com toda propriedade as palavras de São Paulo: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4, 13).


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Fonte: Revista Arautos do Evangelho

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

São Sebastião, Mártir

Hoje a Igreja Católica celebra a memória de São Sebastião, glorioso mártir.



Se nos afigura um jovem, arrancando-se a todos os laços que o prendiam em Milão, sua pátria, pelo único motivo de que a perseguição não era aí suficientemente rigorosa, enquanto a tempestade em Roma alcançava toda sua violência. Ele treme pela constância dos cristãos. Mas ele sabe que, mais de uma vez os soldados de Cristo cobertos pela armadura de soldados de César, se introduziram nas prisões e reanimaram a coragem dos confessores. É a missão que ele ambiciona, esperando o dia em que possa ele mesmo alcançar a palma do martírio. Ele vem pois sustentar aqueles que as lágrimas de seus pais tinham abalado; os próprios carcereiros cedendo ao império de sua fé e de seus milagres, afrontam o martírio e até um magistrado romano pede para se instruir na doutrina que tanta força dá aos homens. Cumulado de favores por Diocleciano e Maximiano-Hércules, Sebastião dispõe, em Roma, de uma influência tão salutar que o santo Papa Caio o proclama Defensor da Igreja.


Após ter enviado ao Céu inumeráveis mártires, o herói obtém enfim a coroa pela qual suspirava. Por sua corajosa confissão, ele incorre no desagrado de Diocleciano, dando preferência ao imperador celeste que ele também servia sob o capacete e a clâmide. É entregue aos arqueiros da Mauritânia, que o despojam, o amarram e o traspassam com suas flechas. Se os piedosos cuidados de Irene o trazem à vida, é para expirar sob outros golpes, no hipódromo contíguo ao palácio dos Césares.


Sim, pois para um atleta [do porte] de Sebastião, um martírio único não foi suficiente. Em vão os arqueiros mergulham seus ferros nos vossos membros. A vida permaneceu inteiramente em vós e a vítima permanece assim pronta para uma segunda imolação. Tais foram os cristãos da primeira idade, e nós somos seus filhos.


Ó defensor da Igreja, assim chamado por um santo Papa mártir, levantai vossa espada para defendê-la ainda. Abatei seus inimigos, desvendai seus planos pérfidos, dai-nos essa paz que a Igreja goza tão raramente e durante a qual Ela se prepara para novos combates, e abençoai as armas cristãs no dia em que tivermos que lutar contra os inimigos exteriores”.


Por Dom Próspero Guéranger, Abade de Solesmes, em L'année liturgique: Le temps de Nöel. 2 v - Página 427

Quotes sobre Infalibilidade Papal

Salve Maria!

São Roberto Belarmino, doutor que contém os melhores
textos que se referem à obediência aos papas.

Como muitas pessoas confundem obediência ao papa com obediência cega e incondicional ao papa, eis aqui uma pequena, mas muito útil lista sobre a infalibilidade do papa.


Primeiro - O Papa só é assistido, ou conduzido pelo Espírito Santo, quando o mesmo se pronuncia em "Ex Cathedra (conforme o Primeiro Concílio do Vaticano decretou), ou seja, quando ele usa o Dom da Infalibilidade Papal (que possui condições para que seja válido, conforme o mesmo Concílio Vaticano I decretou) - o que não acontece desde o Papa Pio XII, com minúsculas exceções, como aquele episódio onde o Papa João Paulo II usou da sua autoridade Apostólica para deixar bem claro que a Igreja não tem autoridade para conferir o Sacramento da Ordem às mulheres [talvez tenha até se arrependido].

Segundo - O Ensinamento da Igreja sempre foi este: "Devemos obedecer antes a Deus do que aos homens", conforme nos ensina São Pedro; "quando um Papa é contrário à Igreja, suas decisões e vontades devem ser ignoradas", conforme nos ensinou São Roberto Berlamino;

Terceiro - Obediência cega é um pecado, e pecado grave;

Quarto - Devemos sim, obedecer nossos superiores, para o nosso próprio bem, mas quando estes superiores nos conduzem para um buraco, devemos nos apartar dos mesmos.

Quinto - O Papa possui o Livre Arbítrio, ou seja, ele tem a capacidade de fazer o quer, quando quer e como quer, ele não é uma robô que o Espírito Santo programou para não cometer erros, a maior prova disso é que tanto o Papa Formoso quanto o Papa Honório, foram excomungados.

Em relação ao item 5, é claro que livre arbítrio não é desculpa para sair errando a todo custo, porque digo, com toda convicção, que um papa não deve conduzir milhares de almas ao precipício infernal.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Comemoração do Batismo de N.S.J.C.

The Baptism of Christ, de Guido Reni - 1623, 
em Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria
Oração Ó Deus, cujo Filho Unigênito apareceu na nautureza de nossa carne, concedei, Vos pedimos, que mereçamos ser reformados interiormente por Aquele que reconhecemos semelhante a nós exteriormente, Ele que, sendo Deus, conosco vive e reina. 

Evangelho (S. João, 1, 29-34) Naquele tempo, viu João a Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Deste é que eu disse: Depois de mim virá um homem que foi antes de mim, porque existia primeiro que eu. Eu não O conhecia, mas para Ele ser conhecido em Israel, vim batizar em água. E mais ainda testificou João: Vi o Espírito descer do céu, em forma de pombo, e pousar sobre Ele. Eu não O conhecia, mas vires descer e repousar o Espírito, Esse é quem batiza no Espírito Santo. Foi o que vi; e dou testemunho que Esse é o Filho de Deus. - Credo.